Debate sobre LGBT é pautado por exemplos pessoais em escola

“Qual é a sua opinião sobre duas mulheres ou dois homens dando beijos em público, na frente de crianças, por exemplo?” Foi essa a pergunta que acendeu o debate sobre diversidade de gênero na Escola Estadual Antonio Manoel Alves de Lima, no Jardim São Luis, em São Paulo. O questionamento de um estudante foi direcionado ao voluntário do Quero na Escola, Felipe de Paula, advogado e integrante do movimento Vote LGBT, mas antes dele, os próprios colegas começaram a responder.

“Eu acho que o problema é a sexualização das crianças em si. As crianças não devem ser expostas a sexo, na minha família nenhuma criança é sexualizada”, expôs Felix, estudante transexual que fez o pedido pela palestra no Quero na Escola e contou ter passado por dificuldades e preconceito durante seu processo de transição do feminino para o masculino.

“Eu sou gay e já sabia desde pequeno que era, não foi porque eu vi alguém se beijando ou não”, acrescentou um outro estudante. “Sou lésbica e passei a vida assistindo a desenhos e novelas que mostravam casais heterossexuais, então acho que essa ideia não faz muito sentido”, disse uma terceira.

Felipe falou sobre as diversas identidades de gênero e a questão do nome social – nome pelo qual a pessoa prefere ser chamada de acordo com seu gênero, diferente daquele que consta em sua certidão de nascimento. “Alguns professores aqui não respeitaram isso, eu entregava a prova e eles falavam que não iam aceitar por conta do nome”, contou Felix sobre um dos desafios que encarou na escola ao se assumir trans.

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Alguns acharam inadequado o beijo homossexual em público, por acreditar que as crianças, ainda em processo de desenvolvimento cognitivo, poderiam ser influenciadas. Outros discordaram e foram dados os exemplos pessoais. Ninguém se ofendeu ou deixou de ouvir o outro em mais de uma hora e meia de discussão até às 22h30.

“Eu pedi esse tema porque é uma coisa que me diz respeito, e muito, ultimamente. Eu senti que minha escola precisava tratar sobre isso, acho que todas as escolas precisam”, contou Felix. “A escola ainda tem um sistema bem fechado para várias coisas, não só nessa questão, e eu espero que ainda aconteçam grandes alterações nesse sentido”.

Antes do encerramento da atividade um professor que acompanhou a atividade compartilhou com o grupo a vontade de parte do corpo docente de criar um grupo contínuo de conversa sobre as questões LGBT dentro da escola e muitos estudantes começaram a colocar suas opiniões. “Eu acho legal ter esse grupo porque não é só com alguém de fora que a gente pode debater isso, mas também em sala de aula”, expôs uma das alunas.

Qualquer estudante de escola pública pode dizer o que gostaria de aprender além do currículo na sua escola no Quero na Escola. Para ver os pedidos existentes e se voluntariar para atender a um deles, clique aqui.

Voluntária usa documentário para discutir aborto em escola pública de Guarulhos

O estudante Caique Marcolino, da Escola Estadual João Luiz de Godoy, em Guarulhos, não esconde o motivo de ter feito o pedido por uma “Conversa sobre aborto” no Quero na Escola: “pedi porque é um tema polêmico, gosto de debates”. Sabendo disso, a jornalista Marcelle de Souza exibiu para a turma o documentário Clandestinas, um curta-metragem com depoimentos de mulheres reais que optaram pelo aborto. Antes de começar ela deixou a pergunta: “vocês acham que essas mulheres deveriam ser presas?”.

Marcelle pesquisou a questão do aborto em seu mestrado e agora inicia seu doutorado no mesmo tema, ambos na PROLAM-USP (Programação de Pós-graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo). Ela deu um panorama da questão do aborto no Brasil e no mundo. “O Brasil está mais perto de países da África ou do Oriente Médio nos números de mortes decorrentes de aborto do que dos países desenvolvidos que já legalizaram”, explicou.

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Alguns dados apresentados por Marcelle para os estudantes.

O assunto é tão tabu que depois da apresentação, os estudantes não expuseram suas dúvidas em frente aos demais colegas. “Fiquei surpreso porque o pessoal geralmente fala bastante”, disse Caique. “Mas acho que na frente de todo mundo ficaram com vergonha”. Apesar do silêncio em público, chegando em casa Marcelle foi checar sua caixa de entrada e já havia recebido um e-mail de uma aluna elogiando a apresentação, agradecendo por sua palestra e reforçando a importância de abordar esse tema na escola. “Fiquei até emocionada”, contou a voluntária.

Integrante do grêmio estudantil, o jovem é autor de mais pedidos no site e contou que os estudantes estão se organizando para levar cada vez mais projetos diferentes para dentro de sua escola. “Vamos arrumar o jardim aqui da frente e fazer um concurso de desenho”, ele contou. “Os ganhadores vão ser grafitados nos banheiros da escola, para cobrir as pixações”.

Quer levar mais atividades à essa escola? Dá uma olhada na página de pedidos dela no Quero na Escola e se inscreva para ajudar.

 

Psicóloga fala sem tabus sobre sexualidade em escola de Parelheiros

“Quem aqui já foi feito de trouxa?” perguntou, causando muitas risadas, a psicóloga especializada em gênero Elânia Francisca para a turma do terceiro ano da Escola Estadual Paulino Nunes Esposo em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo. “Então, ninguém escolhe ser feito de trouxa, né, gente? Certamente foi algum desejo que te levou a ficar com alguém que acabou te fazendo de trouxa depois. E é assim com a identidade de gênero”.

Esse foi o jeito descontraído que ela usou para explicar o que chama de “três pilares da sexualidade”: sexo biológico, identidade de gênero e orientação afetivo-sexual. E assim começou uma discussão sem tabus, perguntando aos estudantes com qual idade eles achavam que uma pessoa começava a ter sexualidade. “Quando acha que está pronto”, disse um. “Quando se interessa por alguém”, disse outra. “Quando nasce”, disse outra, se aproximando da resposta. E Elânia matou a questão: “A sexualidade começa ainda no desenvolvimento, dentro da barriga. Só é preciso ter um corpo para ter sexualidade. Todos nós temos”.

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Elânia levantou temas sérios de forma descontraída (olha a risada da turma!)

Daí, já ficou mais fácil partir para a explicação sobre sexo biológico, o corpo com o qual cada um nasce. “Com pênis, vagina ou intersexo, mas [isso] não diz quem eu sou”, ela explicou. E é aí que entra a orientação afetivo-sexual e da identidade de gênero.

O país que mais mata LGBTs no mundo

Elânia afirmou que o Brasil é o país que mais mata integrantes da comunidade LGBT não apenas para chocar, mas também para explicar a identidade de gênero: CIS (nasceu mulher e se sente mulher) ou TRANS (nasceu mulher mas se sente homem). “Nós temos que pensar na condição das pessoas trans, porque elas vão passar por situações que eu, que sou cis, jamais vou passar”, ela alertou. “A gente precisa entender a identidade para entender e respeitar a diversidade”, completou.

Orientação sexual não é opção e deve ser respeitada. Se eu sou menina e me chamo Elânia, precisam me respeitar me chamando pelo nome que eu quero, e isso deve ser respeitado sempre, está na lei.”

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A psicóloga fez um esquema na lousa para ilustrar os conceitos que explicava

“Quem aqui conhece Liniker e Maria Gadu?”, perguntou Elânia antes de introduzir um último tópico para não deixar dúvidas: a expressão de gênero. Os estudantes se mostraram fãs de ambos, e ainda citaram outras celebridades como Pablo Vittar, uma famosa cantora e drag queen, e a funkeira MC Linn da Quebrada. Elânia explicou então que a expressão de gênero não está necessariamente relacionada à identidade de gênero, são apenas os estereótipos que costumam determinar o que é de homem ou de mulher. Por exemplo, um homem pode ser drag queen – algo associado à expressão de gênero feminina – mas ainda assim ser cis e sentir atração por mulheres.

Um desfecho mais sério

Quando Elânia abriu para perguntas, as dúvidas que acabaram guiando o restante da conversa foram relacionadas a temas como a pedofilia e a hebifilia (adultos que se atraem por adolescentes). A psicóloga deixou claro que quem sofre de um transtorno como esses precisa se tratar, buscar ajuda médica.

Mas fez a ressalva: “Não podemos confundir isso com o componente cultural machista do homem que se sente atraído por meninas mais novas, porque nossa sociedade valoriza o corpo feminino jovem e eles sabem que será mais fácil de ludibriar uma criança ou adolescente”. Ou seja, nem sempre casos assim são um distúrbio, e todos eles são considerados crime.

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A atividade foi resultado da inscrição do Wesley Marques no Quero na Escola, por ser estudante da manhã, ele não conseguiu chegar à tempo para a atividade que foi à noite, mas já estamos providenciando um repeteco! “Muito obrigado por terem ido! Todos elogiaram muito e estão apaixonados pelo projeto!”, foi a mensagem que ele nos enviou, feliz por ter levado o tema a seus colegas.

2.jpg“Muitas coisas que falaram aqui eu nunca tinha ouvido falar”, nos contou Maria Eduarda da Silva, uma das alunas mais participativas durante a atividade, fazendo inclusive um esquema de tudo que foi falado. “Aqui na escola essa discussão é bem aberta, mas ainda assim, muitas pessoas não têm acesso a essas informações”.
Agora, esses estudantes já querem mais: logo depois da atividade chegaram pedidos para conversas sobre Feminismo, Racismo e Diversidade Religiosa. Acha que pode ajudar? É só se inscrever no site e depois entrar na página da escola.

Meninas pra cá, meninos para lá, mas não é baile. É opressão

“Não se nasce mulher: torna-se”. A famosa frase de Simone de Beauvoir guiou uma atividade de feminismo solicitada por uma aluna na Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, e guiada por Luana Alves e Ana Carolina, do Coletivo Juntas. Os estudantes se reuniram em grupos para conversar sobre o que entendiam dela e exemplificar como essa afirmação se aplicava em algum momento de suas vidas. No mesmo dia, outra atividade ilustrou a diferença de gênero de forma bem visual e didática.

Na hora de compartilhar as reflexões e histórias, uma das estudantes contou sobre como precisou se “tornar mulher” muito cedo após a morte de sua mãe e a prisão de seu pai, associando a expressão ao fato de ter amadurecido e assumido diversas responsabilidades com apenas 14 anos. Outra aluna contou da experiência em sua casa, onde ouve da avó paterna que ela, sua mãe e as irmãs deveriam fazer todo o trabalho doméstico – mesmo que a mãe trabalhe fora.

Luana chamou atenção para o quanto os relatos eram parecidos entre si, descrevendo situações muito similares, mesmo em casas e situações diferentes. Foram poucas as falas que destoaram do padrão, como a da aluna que afirmou estar noiva e dividir todas as tarefas de casa com seu companheiro.

Um jeito simples de mostrar as diferenças

Antes disso, Luana quis mostrar como se davam essas desigualdades com uma simples dinâmica. “Vou fazer algumas perguntas para vocês. Se a resposta à pergunta for sim, vocês dão uma passo para a direita. Se for não, um passo para esquerda”, anunciou Luana, e seguiu com perguntas como: Já me falaram para não sair de casa com determinada roupa para não parecer vulgar; Já me falaram para não beijar muitas pessoas para não ganhar fama; Já lavava louça e limpava a casa antes dos 10 anos… entre outras.

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Sala já se dividindo “naturalmente” entre meninos e meninas durante a atividade.

Depois da dinâmica a sala ficou assim, como mostra a foto: meninas de uma lado, meninos do outro, sendo que nenhuma pergunta falava diretamente sobre gênero. Foi a partir dessa provocação que Luana começou a contar mais sobre a luta feminista desde as sufragistas, que reivindicaram o direito da mulher ao voto, principalmente no Reino Unido e nos Estados Unidos, passando pelas ideias de Simone de Beauvoir, que aprofundaram os objetivos do feminismo para além dos direitos políticos, até as lutas atuais, mais ligadas a recortes de orientação sexual, raça e classe social.

Existe exagero no feminismo?

Quando as voluntárias abriram para as últimas considerações e perguntas, Naieslei Lancaster introduziu um tema muito abordado ultimamente: os posicionamentos considerados como exagerados de algumas feministas. E deu o exemplo  de não se depilar.

A isso, Luana respondeu com sua opinião pessoal: “Para mim é questão de escolha, se a pessoa não estiver prejudicando outra, eu não me importo com o que ela está fazendo com seu corpo”. E respondeu de forma parecida a um professor que acompanhou parte da atividade, quando ele perguntou sua opinião sobre “o excesso de feminismo nos relacionamentos”: “Vejo feminismo como liberdade, e não consigo imaginar algo como excesso de liberdade”.

Escola recordista do Quero na Escola

Sabia que a Escola Anecondes Alves Ferreira foi a que mais recebeu voluntários do Quero na Escola? Isso por conta do engajamento dos estudantes – Aderson, Naieslei e Thales e, agora, a Gabrielly – que seguem pedindo temas variados; e também devido à parceria da gestão, principalmente com a coordenadora Verônica Nascimento, sempre aberta e ágil na organização das atividades. Ela é tão parceira que até estreou em nosso vídeo institucional.

Veja a página da escola no site para ver se consegue atender algum desses pedidos.

É estudante de escola pública e quer pedir algo diferente para sua escola? É só se cadastrar em www.queronaescola.com.br

 

Feministas marcam o mês da mulher falando de gênero nas escolas

No Quero na Escola o Mês Internacional da Mulher foi marcado por atividades não de comemoração, mas de discussão sobre igualdade de gênero em escolas públicas de São Paulo. Antes e depois do 8 de Março, voluntárias foram a escolas estaduais de São Paulo falar com meninas e meninos sobre o tema.

Na véspera do 8 de março, a Escola Estadual Padre Anchieta, no bairro do Brás em São Paulo, recebeu duas atividades diferentes com feministas que foram conversar sobre os desafios para combatermos a desigualdade de gênero. Na semana passada, teve mais: a jornalista Lizandra Magon de Almeida foi à Escola Estadual Caetano de Campos, também em São Paulo, na Aclimação, dividir sua experiência como feminista e editora de livros do gênero na Editora Pólen.

Derrubando o patriarcado entre uma jogada e outra

Na manhã do dia 7, no Brás, quem guiou a atividade com duas turmas do 2º ano do Ensino Médio foram as meninas do Fast Food da Política, um projeto que pretende explicar as instituições e trâmites políticos de forma lúdica. Por entender que a questão de gênero é transversal e essencial para o debate político, elas criaram o Molho Especial, com jogos voltados especificamente para esse tema.

Elas começaram questionando o que os estudantes acreditavam ser Política e Machismo, dois temas essenciais de serem discutidos e muitas vezes considerados como tabus. Sobre a Política, fizeram principalmente críticas: corrupção, vergonha, alegaram ser algo chato e desinteressante. Já sobre o Machismo, as respostas variaram: “É quando o homem acha que a mulher é incapaz de exercer profissões, de entrar na política, de achar que ela não pode usar uma roupa decotada, que é feita para lavar e passar” ou “Machismo é algo que existe a muito tempo e só recentemente as mulheres querem ter direitos iguais, na minha opinião é muito cedo para isso acabar”.

Com a discussão iniciada, foi hora de começar a jogar “A Queda do Patriarcado”. O jogo consiste em ir desmontando um pilar composto por blocos – cada um representando uma questão específica de desigualdade de gênero da nossa sociedade – e ir refletindo sobre as questões: falta de acesso a cargos altos, desigualdade salarial, feminicídio, pornografia, entre outras.

 

Cada peça abre uma discussão, por exemplo, um dos alunos retirou a peça Pornografia e revelou aos colegas o fato que “Segundo estudos de 2015, a expectativa de vida média entre atrizes pornô é de 36,2 anos”. E os estudantes foram levantando hipóteses do porquê: doenças, depressão… O jogo segue assim, até que toda a estrutura seja desmontada e uma nova sociedade possa se montar a partir de novos blocos.

Empoderamento feminino a partir de informação

À noite, no mesmo dia 7, foi a vez da Ana Paula Souza, fundadora do site Lado M, falar sobre empoderamento feminino e desigualdade de gênero para estudantes do 3º ano do Ensino Médio e do EJA. Ela levantou diversas questões da cultura patriarcal e machista de nossa sociedade, inclusive levando algumas experiências pessoais de sua infância no Belém do Pará, além de outros exemplos de situações tipicamente machistas do cotidiano.

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Ela destacou muito a questão dessa cultura não afetar apenas as mulheres, mas também aos homens e aos homossexuais. Por apresentarem características mais ligadas ao sexo feminino, como sensibilidade, homens podem sofrer preconceito: “Por causa dessa cultura que não tolera o feminino, as características femininas, tanto em mulheres quanto em homens, resultam em formas de violência”.

E seguindo na questão da violência, Ana falou da formação diferente entre meninos e meninas e dos estereótipos atrelados ao gênero. “Os homens são mais estimulados desde pequenos a assumirem posição de liderança, a serem os chefes da casa e no trabalho. O problema disso é que quando a gente cresce, cria-se uma relação de desigualdade em que um manda o outro obedece, é daí que começam as situações de violência doméstica”, ela explica.

Na roda de conversa, houve espaço para os estudantes expressarem suas ideias. Um dos alunos apontou que, apesar das questões levantadas, a sociedade e os direitos das mulheres já avançaram bastante. Outra aluna foi mais crítica: “O homem ainda, tem muitos, que tem a cabeça de ogro. A mulher é que tá se impondo para deixar de receber ordens”.

Sexta-feira à noite na escola debatendo Feminismo

Na Escola Estadual Caetano de Campos um grupo de alunos já entrou no fim de semana refletindo sobre questões sérias. Na sexta-feira passada, dia 17, a jornalista Lizandra Magon de Almeida foi até lá bater um papo sobre questões de gênero, um pedido da Thayline Cunha, que é estudante do 3º ano do Ensino Médio e integrante do Grêmio Estudantil.

Depois de introduzir o tema, levantando alguns dados sobre a desigualdade de gênero, a voluntária abriu a discussão para ouvir os questionamentos dos alunos. Demorou um pouco para quebrar o silêncio inicial da timidez, mas a discussão logo deslanchou quando um dos estudantes presentes disse: “Acho que isso aí é coisa das nossas avós, já passou já, hoje a gente já sabe que não é assim, já melhorou muito”. Frente ao posicionamento “otimista” do colega, as estudantes presentes e Lizandra expuseram alguns indícios de que estamos longe da igualdade de gênero.

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Seguindo a conversa, Brenda, do 2º ano do Ensino Médio, levantou a questão do aborto, perguntando quem dos presentes era a favor da descriminalização, uma das principais pautas do movimento feminista. A partir daí, o debate foi longe, dividindo a sala praticamente ao meio entre as que apoiavam ou não a mudança na lei. Uma aluna rebateu a questão dizendo que concordava com o aborto em casos de estupro, mas não quando há consentimento da mulher. Brenda, que se mostrou a favor da descriminalização, reforçou: “não entendo qual a diferença, já que (se for considerar que é vida desde a concepção), a vida que está dentro da mulher é a mesma”.

O horário de aula acabou às 22h e cerca de 15 estudantes permaneceram na sala discutindo o tema. Até que a conversa seguiu pelos corredores entre alunos e professores presentes. Na saída, as alunas foram pensando outras atividades abordando temas feministas que poderiam realizar: “acho que precisamos muito falar sobre o feminismo negro aqui, trazer uma pessoa trans para falar da sua experiência”.

Lizandra, que edita livros com temática de gênero em sua editora, a Pólen, doou para a biblioteca da escola um exemplar do livro “Você já é feminista”, escrito por várias mulheres e organizado pela Revista AzMina. Segundo Thayline, primeira a emprestá-lo, a fila para ler depois dela já está grande.

Pedidos de conversar sobre Feminismo e temáticas de Gênero como um todo são frequentes no Quero na Escola e já haviam sido atendidos em uma escola de Barueri (SP), em outra no extremo sul da capital paulista e em um colégio do Rio de Janeiro. E no começo de abril a Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, de Diadema também recebe uma atividade do assunto.

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Ou, se acha que pode ajudar a atender o pedido de algum estudante, dá uma olhada no nosso mapa de pedidos em: www.queronaescola.com.br/pedidos

 

 

Estudantes e professores falam de orientação sexual com voluntário em escola do Brás

“Já tentaram me ensinar que a criança nasce homossexual, mas eu não consigo acreditar nisso”, compartilhou uma aluna da Escola Estadual Padre Anchieta, no Brás (São Paulo – SP), logo no início da conversa sobre homofobia, organizada pelo Quero na Escola na última sexta-feira (2). O voluntário Fábio Meirelles – que foi por quatro anos Coordenador de Direitos Humanos do Ministério da Educação, responsável por conduzir sua política de gênero e diversidade sexual –, foi à escola para falar do assunto solicitado por outra aluna, Ester Passos.

Fábio começou a conversa perguntando se os alunos acreditavam haver uma opção sexual, ou seja, que as pessoas escolhem por qual sexo vão se sentir atraídas sexualmente. Questionou também qual seria a diferença entre orientação sexual e gênero, e, logo de cara, as opiniões contrastantes começaram a surgir. Ester mostrou estar preparada para o debate e em consonância com o voluntário, elencando todas as orientações sexuais e expressões de gênero que conhecia: “Hetero, Homo, Bi, Assexuado, Trans, Travesti…”.  Já outro aluno mostrou acreditar no contrário: “Tem sim muita gente que virou gay pela moda”.

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Alunos que participaram mais ativamente do debate até o final, contrastando opiniões de forma respeitosa e sem agressões.

Com o tempo, o debate foi ficando cada vez mais quente e Fábio ficou com o papel de mediador das trocas entre os alunos e as alunas que queriam colocar ansiosamente suas opiniões na roda. “Homossexual não quer respeito, quer privilégios. Já vi debates em que eles pedem leis exclusivas! As leis deveriam falar de preconceito no geral”, retomou a aluna que abriu a discussão, com apoio de um colega: “Sim, tem que se preocupar com a população como um todo”.

Frente a esses posicionamentos, Fábio explicou que populações como a LGBT e a negra sofrem, objetivamente, mais preconceito que a sociedade como um todo. “É preciso olhar com uma lupa para essas pessoas que passam por vulnerabilidade”, explicou, reforçando a necessidade de políticas específicas de proteção a minorias. Com a dinâmica de cada um poder falar suas opiniões abertamente, não demorou até que o tema fosse expandido para outros assuntos como o feminismo e o aborto.

Alguns professores também participaram com suas opiniões: “Não existe mãe-solteira, existem mães. Esse estigma de solteira é colocado pela nossa cultura”, pontuou Jean, que dá aulas de Português, pegando carona na fala de uma aluna que relatou ter sido criada apenas pela mãe. Mas o docente que mais impressionou com um relato marcante foi o Fernando Queiroz, professor de Língua Portuguesa:

“Sou professor e ex-aluno dessa escola, onde sofri muito bullying. Se eu pudesse escolher, eu escolheria ser homem, para não sofrer com o preconceito”, ele compartilhou. E continuou, fazendo referência a Luma Andrade, a primeira travesti a concluir um doutorado no Brasil: “A genitália não pode predominar sobre o pensamento. E nem venham falar de igualdade não, porque a gente não tem igualdade”.

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Professor Fernando falando de sua experiência pessoal como homossexual na escola.

Outra afirmação comum entre os alunos e professores foi a de que ninguém seria obrigado a aceitar a orientação sexual alheia, mas sim a respeitar. Ao que Fábio ressaltou que é importante tomar cuidado porque “você pode não aceitar, mas considerando as questões de estereótipos, pode acabar colaborando com a opressão”, explicou, citando a tradicional divisão de cores e brinquedos entre meninos e meninas.

Quem se posicionou, também, foi a Jennifer Santos Sousa, professora de Sociologia da escola, que deu uma aula de tolerância: “Temos que pensar que vivemos dentro de um sistema cultural, transmitido através da educação. Todos vocês são iguais? Aqui na escola mais de 50% são imigrantes e sempre pergunto para eles se a cultura no Brasil é igual à Bolívia, ao Perú, sempre dizem que não”, explicou. “Temos que reconhecer a diferença e possibilitar espaços como esse, em que o diálogo seja possível”, concluiu, reforçando a importância dos debates que, segundo ela e os alunos, são pouco frequentes no ambiente escolar.

A troca de ideias foi proveitosa e, apesar do clima quente, todos se respeitaram e ouviram as opiniões dos outros sem partir para a agressão verbal. Uma cena que ilustra bem essa característica saudável do debate aconteceu na despedida, quando o professor Fernando disse a um aluno: “Olha, eu gosto de você, viu? Não concordo com as suas opiniões, mas gosto muito de você”.

“Foi super legal participar do debate, e principalmente saber que uma estudante de escola pública fez esse pedido. Acho que os alunos, professores e a coordenação da escola gostou muito, até pediu para a gente repetir”, conta Fábio sobre sua experiência como voluntário, afirmando que espera se candidatar mais vezes para conversas assim.

Esse foi o primeiro pedido atendido na Escola Estadual Padre Anchieta, veja todos os pedidos que ainda aguardam voluntários.

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