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Aeromoças atendem aluna e falam de rotina e profissão em escola

Uma à paisana, uma com uniforme completo da Gol, outra com todo o traje da Latam. Foi assim que as comissárias de bordo Michele Consorti, Anaí Martin e Ariadne Francini visitaram a escola estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, para falar da profissão e da vida entre um voo e outro.

As três conversaram com 50 alunos por mais de três horas. Elas se voluntariaram para a palestra após o pedido de Naieslei Lancaster pelo Quero na Escola. Aos 17 anos, a jovem já pensava em ser aeromoça e agora tem certeza. “Foi maravilhoso, elas tiraram todas as dúvidas que eu tinha, falaram da vida pessoal, me deram as dicas. Fiquei muito feliz”, conta.

Amigas muito próximas, apesar de voarem em companhias aéreas “rivais”, Anaí e Ariadne vieram juntas de Mogi das Cruzes para a atividade. “Conseguimos conciliar as folgas, autorização das empresas para usar o uniforme e foi uma satisfação. Não pensei que fossem ter tantas perguntas”, comenta Anaí.

Michele, que mora em São Bernardo do Campo, fez uma pausa na carreira há cinco anos, quando a filha era bebê e ela queria estar mais perto da criança. A rotina diferente do padrão foi um dos temas mais comentados, assim como salário, destinos, treinamento, medos e curiosidades. Assista alguns trechos acima.

O Quero na Escola é uma ferramenta aberta a qualquer estudante para que peçam atividades em suas escolas públicas que não constem do currículo. Podem ser assuntos para uma atividade, oficina ou palestra.

Meninas pra cá, meninos para lá, mas não é baile. É opressão

“Não se nasce mulher: torna-se”. A famosa frase de Simone de Beauvoir guiou uma atividade de feminismo solicitada por uma aluna na Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, e guiada por Luana Alves e Ana Carolina, do Coletivo Juntas. Os estudantes se reuniram em grupos para conversar sobre o que entendiam dela e exemplificar como essa afirmação se aplicava em algum momento de suas vidas. No mesmo dia, outra atividade ilustrou a diferença de gênero de forma bem visual e didática.

Na hora de compartilhar as reflexões e histórias, uma das estudantes contou sobre como precisou se “tornar mulher” muito cedo após a morte de sua mãe e a prisão de seu pai, associando a expressão ao fato de ter amadurecido e assumido diversas responsabilidades com apenas 14 anos. Outra aluna contou da experiência em sua casa, onde ouve da avó paterna que ela, sua mãe e as irmãs deveriam fazer todo o trabalho doméstico – mesmo que a mãe trabalhe fora.

Luana chamou atenção para o quanto os relatos eram parecidos entre si, descrevendo situações muito similares, mesmo em casas e situações diferentes. Foram poucas as falas que destoaram do padrão, como a da aluna que afirmou estar noiva e dividir todas as tarefas de casa com seu companheiro.

Um jeito simples de mostrar as diferenças

Antes disso, Luana quis mostrar como se davam essas desigualdades com uma simples dinâmica. “Vou fazer algumas perguntas para vocês. Se a resposta à pergunta for sim, vocês dão uma passo para a direita. Se for não, um passo para esquerda”, anunciou Luana, e seguiu com perguntas como: Já me falaram para não sair de casa com determinada roupa para não parecer vulgar; Já me falaram para não beijar muitas pessoas para não ganhar fama; Já lavava louça e limpava a casa antes dos 10 anos… entre outras.

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Sala já se dividindo “naturalmente” entre meninos e meninas durante a atividade.

Depois da dinâmica a sala ficou assim, como mostra a foto: meninas de uma lado, meninos do outro, sendo que nenhuma pergunta falava diretamente sobre gênero. Foi a partir dessa provocação que Luana começou a contar mais sobre a luta feminista desde as sufragistas, que reivindicaram o direito da mulher ao voto, principalmente no Reino Unido e nos Estados Unidos, passando pelas ideias de Simone de Beauvoir, que aprofundaram os objetivos do feminismo para além dos direitos políticos, até as lutas atuais, mais ligadas a recortes de orientação sexual, raça e classe social.

Existe exagero no feminismo?

Quando as voluntárias abriram para as últimas considerações e perguntas, Naieslei Lancaster introduziu um tema muito abordado ultimamente: os posicionamentos considerados como exagerados de algumas feministas. E deu o exemplo  de não se depilar.

A isso, Luana respondeu com sua opinião pessoal: “Para mim é questão de escolha, se a pessoa não estiver prejudicando outra, eu não me importo com o que ela está fazendo com seu corpo”. E respondeu de forma parecida a um professor que acompanhou parte da atividade, quando ele perguntou sua opinião sobre “o excesso de feminismo nos relacionamentos”: “Vejo feminismo como liberdade, e não consigo imaginar algo como excesso de liberdade”.

Escola recordista do Quero na Escola

Sabia que a Escola Anecondes Alves Ferreira foi a que mais recebeu voluntários do Quero na Escola? Isso por conta do engajamento dos estudantes – Aderson, Naieslei e Thales e, agora, a Gabrielly – que seguem pedindo temas variados; e também devido à parceria da gestão, principalmente com a coordenadora Verônica Nascimento, sempre aberta e ágil na organização das atividades. Ela é tão parceira que até estreou em nosso vídeo institucional.

Veja a página da escola no site para ver se consegue atender algum desses pedidos.

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Estudante de Astronomia dá palestra em escola pública de Diadema

Você já deve ter ouvido falar que o Sol vai acabar daqui alguns milhares de anos, né? Também deve ter acompanhado quando Plutão perdeu sua categoria de planeta. Atendendo ao pedido do aluno Aderson Silva no Quero na Escola, a Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira recebeu o Lucas Moda, estudante de Astronomia na USP, para falar dessas e outras questões curiosas.

Lucas desmistificou algumas ideias em torno dos astros. “Sei que é sem graça, mas a maior parte do Universo não tem nada”, disse logo no início. “Mas como não é muito legal ficar falando sobre nada, vou falar sobre o que existe”, continuou, e aproveitou para deixar clara a diferença entre Astronomia e Astrologia. Para ele, a crença que os astros definiriam características e comportamentos não é apoiada em nenhum estudo científico.

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Ele seguiu com outras curiosidades, explicando como surgem e morrem as estrelas, por exemplo. “Sem querer desanimar, gente, mas as estrelas são, basicamente, um acúmulo de gases”, conta. Os alunos também aprenderam como se dá o ciclo de vida dessas estrelas até sua “morte”, fenômeno que justifica a extinção do Sol, sobre a qual ouvimos tanto falar.

São essas “estrelas mortas” que dão origem a outro conhecido fenômeno: o buraco negro. “Neles a gravidade é tão alta que supera a velocidade da luz, por isso são chamados assim”, ele explica. A palestra passou de maneira superficial por diversos outros conceitos e termos da Astronomia, dando referências para aqueles que se interessam pesquisar mais sobre o assunto.

Como é o caso do Aderson: “Gostei da experiência. Não vou cursar a área porque não tenho habilidade em Matemática, mas sempre gostei de Astronomia”. Ele conta que escolheu seguir a área da Neurociência e que fez o pedido pensando mais nos colegas que em si mesmo: “Pedi para eles conhecerem mesmo. É algo popular, mas ninguém conhece nada. Todo mundo conhece uma estrela, mas ninguém sabe o que É uma estrela”.

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O professor de Matemática Rodrigo Mioto também acompanhou a palestra e se esforçou para conseguir um microfone para facilitar a palestra. “Foi uma pena que precisei sair algumas vezes para arrumar isso, porque eu gosto muito de Astronomia, gostaria de ter mais tempo para estudar o tema”.

Para Lucas, a experiência também foi enriquecedora: “Quis ir para me desafiar, quebrar alguns preconceitos e paradigmas que a gente cria vivendo na bolha da sociedade elitista padrão”, ele conta, reconhecendo o privilégio de estudar em uma faculdade pública renomada. “Acho que a gente sempre tem que acreditar, enquanto tiver alguma coisa que você possa fazer, alguma semente que consiga plantar, tudo é válido”, e completa dizendo que está a postos caso chegue mais pedidos sobre o tema.

A Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira já recebeu diversas atividades do Quero na Escola, principalmente ligadas ao tema dos direitos humanos, a próxima será sobre Feminismo. Para ver todos os pedidos da escola, clique aqui, pode ser que você consiga atender algum.

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Texto e fotos: Sabrina Coutinho

 

Após dinâmica sobre racismo com voluntária, professora diz que alunos não serão mais os mesmos

“Quem aqui se considera negro?”, foi o primeiro questionamento levantado por Isla Nakano, socióloga que atendeu ao pedido por uma palestra sobre Racismo, feito por Naieslei Carvalho, 16, aluna da Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, Grande São Paulo.

Mostrando que não seria a única a falar ali, Isla continuou perguntando: “Você ou alguém que você conhece já passou por uma situação que você considera racista?” A maioria dos braços se ergueram e logo os jovens começaram a se engajar na conversa. “Por mais que a pessoa pense que nunca passou por isso, uma coisa que acontece é você entrar numa loja e a vendedora já olhar torto pra você. Às vezes você tá no ônibus e a pessoa não quer sentar do seu lado. Acho que isso pode sim ser uma forma de racismo”, compartilhou Érica Meira, aluna do 3º ano.

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Após “quebrar o gelo” com as perguntas iniciais, a socióloga, mestre em estudos étnicos, raciais e migratórios, foi mais longe: pediu que os alunos se reunissem em pequenos grupos para compartilhar situações em que passaram ou presenciaram o racismo. Depois, um integrante de cada grupo foi ao centro da roda contar todos os relatos divididos por seus colegas. Leonardo, também no último ano do Ensino Médio, compartilhou por exemplo o receio de andar em um shopping e sentir o julgamento dos seguranças: “Só porque a gente tem uma aparência da periferia acham que a gente não vai poder comprar nada”.

Ao serem perguntados do porquê do negro receber esse tratamento na sociedade, muitos demonstraram um entendimento histórico e crítico sobre o assunto. “Desde os séculos passados os negros eram vistos como escravos, e essa visão, que eu acho errada, veio continuando. A mídia também coloca isso na nossa cabeça quando os papéis principais das novelas nunca são negros, sendo sempre a empregada doméstica”, dividiu uma das alunas.

De volta aos grupos, dessa vez os estudantes teriam que compartilhar um episódio marcante de suas vidas, não necessariamente ligado ao preconceito. Foi aí que o encontro se intensificou. Alguns contaram sobre divórcios dos pais, falecimentos e assassinatos em suas famílias e até de um tio que teria a intenção de vender órgãos da própria sobrinha para comprar drogas. Naieslei não segurou o choro ao desabafar sobre questões pessoais, sendo aplaudida pelos colegas por sua força: “Tem também a questão de que a minha família não aceita o fato de eu ser lésbica”. 

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Alunos foram ao centro falar sobre suas experiências e de seus colegas de grupo.

Após esse momento de troca, Isla contou que a ideia da dinâmica era exercitar a empatia. “É isso que aproxima a gente. Quando você ouve a história do seu colega, às vezes você nunca nem conversou com ele na escola, mas a gente sente alguma coisa e percebemos que somos próximos”, contou. Um dos alunos concordou: “Na escola a gente é tipo robô. Esse é um momento que a gente pode falar de nós mesmos, sem ser sobre conteúdo”, seguido por outra aluna, que afirmou nunca ter tido essa oportunidade de conversar sobre questões pessoais dentro da escola.

Para Isla, também foi uma oportunidade única de guiar uma palestra diferente do que ela imaginava: “Foi tudo muito inesperado, talvez por isso tenha sido tão incrível e me surpreendeu muito! Eu cheguei lá e vi que os conceitos que eu tinha separado para falar não tinha como fazer daquele jeito, e eles acabaram me ensinando como acompanhar os pensamentos deles, as demandas deles”, ela conta. A voluntária também saiu da sala emocionada: “Eu fiquei extremamente impressionada com algumas pessoas que estavam na sala, gente com trajetória de vida muito intensa, com histórias inexplicáveis e com um pulso de vida, com uma vontade de construir algo novo, que me emocionou demais! Essa troca foi a coisa mais bacana”. 

“As pessoas que vão sair daqui hoje não são as mesmas que entraram”, afirmou a professora de Sociologia, Gilnair Pereira, que aproveitou para estimular os jovens a fazerem mais pedidos no Quero na Escola. “Eu achei maravilhoso, aprendi muito. Consegui perceber aqui alguns problemas que eles tem que eu não havia percebido antes e que vou procurar a partir de agora trabalhar na sala de aula”, contou.

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Professora Gil, de Sociologia, conversa com os alunos depois da palestra.

Ela e o coordenador pedagógico da escola contaram que percebem entre os alunos casos de racismo daqueles que por muitos são considerados “normais”, como o uso de apelidos, mas que o preconceito fica mais aparente contra jovens que se assumem homossexuais. “É que o Brasil não é um país racista, né?”, ironiza a professora, “mas só quem tem a pele mais escura, quem é mulher, homossexual, ou está fora do padrão de beleza, sabe como é”.

“Foi melhor do que eu esperava. Não achei que iam se envolver desse jeito, que eu ia desabafar e acabar chorando. Eu vi pessoas que eu nunca falei na vida contando histórias e me senti amiga delas por ter histórias parecidas”, conta Naieslei, dividindo mais uma ideia para a escola: “Até conversei com a professora Gil e a gente teve a ideia de montar um grupo de apoio, para poder conversar assim pelo menos uma vez na semana, juntar os alunos que querem desabafar e querem ser ajudados”.

A EE Anecondes Alves Ferreira já havia recebido duas palestras, sobre Direitos Humanos, uma em março e a outra em maio deste ano depois de um pedido no Quero na Escola. Veja a página da escola no site, pode ser que tenha algum assunto em que você pode ajudar.

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