Militante negra leva discussão racial para escola pública de Salvador

Evaldo Leal é estudante do Ensino Médio do CEEP Luiz Pinto de Carvalho em Salvador, Bahia, considerada a capital mais negra do Brasil. Este título, porém, não isenta a cidade de discriminação racial, e foi pensando nisso que Evaldo fez seu pedido ao Quero na Escola: “Etnia, cor e representatividade negra”. O estudante quis levar para sua escola, principalmente, a questão de como pessoas negras enxergam a si mesmas em meio a tantos estereótipos e representações midiáticas preconceituosas.

Quem se prontificou a atender ao chamado foi a comunicóloga e militante da pauta racial Luciane Reis, que atua principalmente na área do afro-empreendedorismo, sendo idealizadora do Merc`Afro, uma agência de fomento ao desenvolvimento de negócios locais e étnicos. A conversa girou em torno da inclusão dos jovens negros na universidade, da discriminação e da falta de valorização, mostrando que as dificuldades enfrentadas por eles vão além das relacionadas à baixa renda. Mas Luciane e os alunos também conversaram sobre como essa população tem conseguido superar obstáculos, mesmo tendo de se esforçar mais, devido à falta de oportunidades.

fotosalvador2.jpg
Luciane conversou com duas turmas do Ensino Médio

“Também foram levantadas questões acerca das nossas origens, até de forma que pudéssemos vislumbrar a identidade que iremos construir daqui pra frente”, contou Evaldo. “Houve um engajamento, mas acho que ainda temos muito a explorar, porque ainda é uma coisa nova pra gente”. O estudante deseja levar mais discussões como essa para dentro de sua escola.

“Foi um encontro rico em troca de informação. Encontrei adolescentes não somente preocupados com seus futuros, mas criando possibilidades de mudança para sua realidade”, contou Luciane. E as trocas vão continuar por lá: na próxima semana será a vez dos estudantes do turno da tarde receberem uma advogada, pesquisadora da causa racial, para debater a questão em uma roda de conversa.

E os baianos podem ficar ligados no nosso mapa, que tem vários pedidos aguardando voluntários. Uma estudante de Itaparica quer saber mais sobre o mercado de trabalho na Biologia e um estudante de Ubaíra quer conhecer profissões como Medicina, Design e Tecnologia da Informação.

Anúncios

Psicóloga fala sem tabus sobre sexualidade em escola de Parelheiros

“Quem aqui já foi feito de trouxa?” perguntou, causando muitas risadas, a psicóloga especializada em gênero Elânia Francisca para a turma do terceiro ano da Escola Estadual Paulino Nunes Esposo em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo. “Então, ninguém escolhe ser feito de trouxa, né, gente? Certamente foi algum desejo que te levou a ficar com alguém que acabou te fazendo de trouxa depois. E é assim com a identidade de gênero”.

Esse foi o jeito descontraído que ela usou para explicar o que chama de “três pilares da sexualidade”: sexo biológico, identidade de gênero e orientação afetivo-sexual. E assim começou uma discussão sem tabus, perguntando aos estudantes com qual idade eles achavam que uma pessoa começava a ter sexualidade. “Quando acha que está pronto”, disse um. “Quando se interessa por alguém”, disse outra. “Quando nasce”, disse outra, se aproximando da resposta. E Elânia matou a questão: “A sexualidade começa ainda no desenvolvimento, dentro da barriga. Só é preciso ter um corpo para ter sexualidade. Todos nós temos”.

imagemgenero1.png
Elânia levantou temas sérios de forma descontraída (olha a risada da turma!)

Daí, já ficou mais fácil partir para a explicação sobre sexo biológico, o corpo com o qual cada um nasce. “Com pênis, vagina ou intersexo, mas [isso] não diz quem eu sou”, ela explicou. E é aí que entra a orientação afetivo-sexual e da identidade de gênero.

O país que mais mata LGBTs no mundo

Elânia afirmou que o Brasil é o país que mais mata integrantes da comunidade LGBT não apenas para chocar, mas também para explicar a identidade de gênero: CIS (nasceu mulher e se sente mulher) ou TRANS (nasceu mulher mas se sente homem). “Nós temos que pensar na condição das pessoas trans, porque elas vão passar por situações que eu, que sou cis, jamais vou passar”, ela alertou. “A gente precisa entender a identidade para entender e respeitar a diversidade”, completou.

Orientação sexual não é opção e deve ser respeitada. Se eu sou menina e me chamo Elânia, precisam me respeitar me chamando pelo nome que eu quero, e isso deve ser respeitado sempre, está na lei.”

imagemgenero2.png
A psicóloga fez um esquema na lousa para ilustrar os conceitos que explicava

“Quem aqui conhece Liniker e Maria Gadu?”, perguntou Elânia antes de introduzir um último tópico para não deixar dúvidas: a expressão de gênero. Os estudantes se mostraram fãs de ambos, e ainda citaram outras celebridades como Pablo Vittar, uma famosa cantora e drag queen, e a funkeira MC Linn da Quebrada. Elânia explicou então que a expressão de gênero não está necessariamente relacionada à identidade de gênero, são apenas os estereótipos que costumam determinar o que é de homem ou de mulher. Por exemplo, um homem pode ser drag queen – algo associado à expressão de gênero feminina – mas ainda assim ser cis e sentir atração por mulheres.

Um desfecho mais sério

Quando Elânia abriu para perguntas, as dúvidas que acabaram guiando o restante da conversa foram relacionadas a temas como a pedofilia e a hebifilia (adultos que se atraem por adolescentes). A psicóloga deixou claro que quem sofre de um transtorno como esses precisa se tratar, buscar ajuda médica.

Mas fez a ressalva: “Não podemos confundir isso com o componente cultural machista do homem que se sente atraído por meninas mais novas, porque nossa sociedade valoriza o corpo feminino jovem e eles sabem que será mais fácil de ludibriar uma criança ou adolescente”. Ou seja, nem sempre casos assim são um distúrbio, e todos eles são considerados crime.

—-

A atividade foi resultado da inscrição do Wesley Marques no Quero na Escola, por ser estudante da manhã, ele não conseguiu chegar à tempo para a atividade que foi à noite, mas já estamos providenciando um repeteco! “Muito obrigado por terem ido! Todos elogiaram muito e estão apaixonados pelo projeto!”, foi a mensagem que ele nos enviou, feliz por ter levado o tema a seus colegas.

2.jpg“Muitas coisas que falaram aqui eu nunca tinha ouvido falar”, nos contou Maria Eduarda da Silva, uma das alunas mais participativas durante a atividade, fazendo inclusive um esquema de tudo que foi falado. “Aqui na escola essa discussão é bem aberta, mas ainda assim, muitas pessoas não têm acesso a essas informações”.
Agora, esses estudantes já querem mais: logo depois da atividade chegaram pedidos para conversas sobre Feminismo, Racismo e Diversidade Religiosa. Acha que pode ajudar? É só se inscrever no site e depois entrar na página da escola.

Após dinâmica sobre racismo com voluntária, professora diz que alunos não serão mais os mesmos

“Quem aqui se considera negro?”, foi o primeiro questionamento levantado por Isla Nakano, socióloga que atendeu ao pedido por uma palestra sobre Racismo, feito por Naieslei Carvalho, 16, aluna da Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, Grande São Paulo.

Mostrando que não seria a única a falar ali, Isla continuou perguntando: “Você ou alguém que você conhece já passou por uma situação que você considera racista?” A maioria dos braços se ergueram e logo os jovens começaram a se engajar na conversa. “Por mais que a pessoa pense que nunca passou por isso, uma coisa que acontece é você entrar numa loja e a vendedora já olhar torto pra você. Às vezes você tá no ônibus e a pessoa não quer sentar do seu lado. Acho que isso pode sim ser uma forma de racismo”, compartilhou Érica Meira, aluna do 3º ano.

isladiadema

Após “quebrar o gelo” com as perguntas iniciais, a socióloga, mestre em estudos étnicos, raciais e migratórios, foi mais longe: pediu que os alunos se reunissem em pequenos grupos para compartilhar situações em que passaram ou presenciaram o racismo. Depois, um integrante de cada grupo foi ao centro da roda contar todos os relatos divididos por seus colegas. Leonardo, também no último ano do Ensino Médio, compartilhou por exemplo o receio de andar em um shopping e sentir o julgamento dos seguranças: “Só porque a gente tem uma aparência da periferia acham que a gente não vai poder comprar nada”.

Ao serem perguntados do porquê do negro receber esse tratamento na sociedade, muitos demonstraram um entendimento histórico e crítico sobre o assunto. “Desde os séculos passados os negros eram vistos como escravos, e essa visão, que eu acho errada, veio continuando. A mídia também coloca isso na nossa cabeça quando os papéis principais das novelas nunca são negros, sendo sempre a empregada doméstica”, dividiu uma das alunas.

De volta aos grupos, dessa vez os estudantes teriam que compartilhar um episódio marcante de suas vidas, não necessariamente ligado ao preconceito. Foi aí que o encontro se intensificou. Alguns contaram sobre divórcios dos pais, falecimentos e assassinatos em suas famílias e até de um tio que teria a intenção de vender órgãos da própria sobrinha para comprar drogas. Naieslei não segurou o choro ao desabafar sobre questões pessoais, sendo aplaudida pelos colegas por sua força: “Tem também a questão de que a minha família não aceita o fato de eu ser lésbica”. 

img_5668
Alunos foram ao centro falar sobre suas experiências e de seus colegas de grupo.

Após esse momento de troca, Isla contou que a ideia da dinâmica era exercitar a empatia. “É isso que aproxima a gente. Quando você ouve a história do seu colega, às vezes você nunca nem conversou com ele na escola, mas a gente sente alguma coisa e percebemos que somos próximos”, contou. Um dos alunos concordou: “Na escola a gente é tipo robô. Esse é um momento que a gente pode falar de nós mesmos, sem ser sobre conteúdo”, seguido por outra aluna, que afirmou nunca ter tido essa oportunidade de conversar sobre questões pessoais dentro da escola.

Para Isla, também foi uma oportunidade única de guiar uma palestra diferente do que ela imaginava: “Foi tudo muito inesperado, talvez por isso tenha sido tão incrível e me surpreendeu muito! Eu cheguei lá e vi que os conceitos que eu tinha separado para falar não tinha como fazer daquele jeito, e eles acabaram me ensinando como acompanhar os pensamentos deles, as demandas deles”, ela conta. A voluntária também saiu da sala emocionada: “Eu fiquei extremamente impressionada com algumas pessoas que estavam na sala, gente com trajetória de vida muito intensa, com histórias inexplicáveis e com um pulso de vida, com uma vontade de construir algo novo, que me emocionou demais! Essa troca foi a coisa mais bacana”. 

“As pessoas que vão sair daqui hoje não são as mesmas que entraram”, afirmou a professora de Sociologia, Gilnair Pereira, que aproveitou para estimular os jovens a fazerem mais pedidos no Quero na Escola. “Eu achei maravilhoso, aprendi muito. Consegui perceber aqui alguns problemas que eles tem que eu não havia percebido antes e que vou procurar a partir de agora trabalhar na sala de aula”, contou.

professoragil.jpg
Professora Gil, de Sociologia, conversa com os alunos depois da palestra.

Ela e o coordenador pedagógico da escola contaram que percebem entre os alunos casos de racismo daqueles que por muitos são considerados “normais”, como o uso de apelidos, mas que o preconceito fica mais aparente contra jovens que se assumem homossexuais. “É que o Brasil não é um país racista, né?”, ironiza a professora, “mas só quem tem a pele mais escura, quem é mulher, homossexual, ou está fora do padrão de beleza, sabe como é”.

“Foi melhor do que eu esperava. Não achei que iam se envolver desse jeito, que eu ia desabafar e acabar chorando. Eu vi pessoas que eu nunca falei na vida contando histórias e me senti amiga delas por ter histórias parecidas”, conta Naieslei, dividindo mais uma ideia para a escola: “Até conversei com a professora Gil e a gente teve a ideia de montar um grupo de apoio, para poder conversar assim pelo menos uma vez na semana, juntar os alunos que querem desabafar e querem ser ajudados”.

A EE Anecondes Alves Ferreira já havia recebido duas palestras, sobre Direitos Humanos, uma em março e a outra em maio deste ano depois de um pedido no Quero na Escola. Veja a página da escola no site, pode ser que tenha algum assunto em que você pode ajudar.

É estudante e quer pedir uma aula diferente na sua escola? Peça em www.queronaescola.com.br