Feministas marcam o mês da mulher falando de gênero nas escolas

No Quero na Escola o Mês Internacional da Mulher foi marcado por atividades não de comemoração, mas de discussão sobre igualdade de gênero em escolas públicas de São Paulo. Antes e depois do 8 de Março, voluntárias foram a escolas estaduais de São Paulo falar com meninas e meninos sobre o tema.

Na véspera do 8 de março, a Escola Estadual Padre Anchieta, no bairro do Brás em São Paulo, recebeu duas atividades diferentes com feministas que foram conversar sobre os desafios para combatermos a desigualdade de gênero. Na semana passada, teve mais: a jornalista Lizandra Magon de Almeida foi à Escola Estadual Caetano de Campos, também em São Paulo, na Aclimação, dividir sua experiência como feminista e editora de livros do gênero na Editora Pólen.

Derrubando o patriarcado entre uma jogada e outra

Na manhã do dia 7, no Brás, quem guiou a atividade com duas turmas do 2º ano do Ensino Médio foram as meninas do Fast Food da Política, um projeto que pretende explicar as instituições e trâmites políticos de forma lúdica. Por entender que a questão de gênero é transversal e essencial para o debate político, elas criaram o Molho Especial, com jogos voltados especificamente para esse tema.

Elas começaram questionando o que os estudantes acreditavam ser Política e Machismo, dois temas essenciais de serem discutidos e muitas vezes considerados como tabus. Sobre a Política, fizeram principalmente críticas: corrupção, vergonha, alegaram ser algo chato e desinteressante. Já sobre o Machismo, as respostas variaram: “É quando o homem acha que a mulher é incapaz de exercer profissões, de entrar na política, de achar que ela não pode usar uma roupa decotada, que é feita para lavar e passar” ou “Machismo é algo que existe a muito tempo e só recentemente as mulheres querem ter direitos iguais, na minha opinião é muito cedo para isso acabar”.

Com a discussão iniciada, foi hora de começar a jogar “A Queda do Patriarcado”. O jogo consiste em ir desmontando um pilar composto por blocos – cada um representando uma questão específica de desigualdade de gênero da nossa sociedade – e ir refletindo sobre as questões: falta de acesso a cargos altos, desigualdade salarial, feminicídio, pornografia, entre outras.

 

Cada peça abre uma discussão, por exemplo, um dos alunos retirou a peça Pornografia e revelou aos colegas o fato que “Segundo estudos de 2015, a expectativa de vida média entre atrizes pornô é de 36,2 anos”. E os estudantes foram levantando hipóteses do porquê: doenças, depressão… O jogo segue assim, até que toda a estrutura seja desmontada e uma nova sociedade possa se montar a partir de novos blocos.

Empoderamento feminino a partir de informação

À noite, no mesmo dia 7, foi a vez da Ana Paula Souza, fundadora do site Lado M, falar sobre empoderamento feminino e desigualdade de gênero para estudantes do 3º ano do Ensino Médio e do EJA. Ela levantou diversas questões da cultura patriarcal e machista de nossa sociedade, inclusive levando algumas experiências pessoais de sua infância no Belém do Pará, além de outros exemplos de situações tipicamente machistas do cotidiano.

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Ela destacou muito a questão dessa cultura não afetar apenas as mulheres, mas também aos homens e aos homossexuais. Por apresentarem características mais ligadas ao sexo feminino, como sensibilidade, homens podem sofrer preconceito: “Por causa dessa cultura que não tolera o feminino, as características femininas, tanto em mulheres quanto em homens, resultam em formas de violência”.

E seguindo na questão da violência, Ana falou da formação diferente entre meninos e meninas e dos estereótipos atrelados ao gênero. “Os homens são mais estimulados desde pequenos a assumirem posição de liderança, a serem os chefes da casa e no trabalho. O problema disso é que quando a gente cresce, cria-se uma relação de desigualdade em que um manda o outro obedece, é daí que começam as situações de violência doméstica”, ela explica.

Na roda de conversa, houve espaço para os estudantes expressarem suas ideias. Um dos alunos apontou que, apesar das questões levantadas, a sociedade e os direitos das mulheres já avançaram bastante. Outra aluna foi mais crítica: “O homem ainda, tem muitos, que tem a cabeça de ogro. A mulher é que tá se impondo para deixar de receber ordens”.

Sexta-feira à noite na escola debatendo Feminismo

Na Escola Estadual Caetano de Campos um grupo de alunos já entrou no fim de semana refletindo sobre questões sérias. Na sexta-feira passada, dia 17, a jornalista Lizandra Magon de Almeida foi até lá bater um papo sobre questões de gênero, um pedido da Thayline Cunha, que é estudante do 3º ano do Ensino Médio e integrante do Grêmio Estudantil.

Depois de introduzir o tema, levantando alguns dados sobre a desigualdade de gênero, a voluntária abriu a discussão para ouvir os questionamentos dos alunos. Demorou um pouco para quebrar o silêncio inicial da timidez, mas a discussão logo deslanchou quando um dos estudantes presentes disse: “Acho que isso aí é coisa das nossas avós, já passou já, hoje a gente já sabe que não é assim, já melhorou muito”. Frente ao posicionamento “otimista” do colega, as estudantes presentes e Lizandra expuseram alguns indícios de que estamos longe da igualdade de gênero.

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Seguindo a conversa, Brenda, do 2º ano do Ensino Médio, levantou a questão do aborto, perguntando quem dos presentes era a favor da descriminalização, uma das principais pautas do movimento feminista. A partir daí, o debate foi longe, dividindo a sala praticamente ao meio entre as que apoiavam ou não a mudança na lei. Uma aluna rebateu a questão dizendo que concordava com o aborto em casos de estupro, mas não quando há consentimento da mulher. Brenda, que se mostrou a favor da descriminalização, reforçou: “não entendo qual a diferença, já que (se for considerar que é vida desde a concepção), a vida que está dentro da mulher é a mesma”.

O horário de aula acabou às 22h e cerca de 15 estudantes permaneceram na sala discutindo o tema. Até que a conversa seguiu pelos corredores entre alunos e professores presentes. Na saída, as alunas foram pensando outras atividades abordando temas feministas que poderiam realizar: “acho que precisamos muito falar sobre o feminismo negro aqui, trazer uma pessoa trans para falar da sua experiência”.

Lizandra, que edita livros com temática de gênero em sua editora, a Pólen, doou para a biblioteca da escola um exemplar do livro “Você já é feminista”, escrito por várias mulheres e organizado pela Revista AzMina. Segundo Thayline, primeira a emprestá-lo, a fila para ler depois dela já está grande.

Pedidos de conversar sobre Feminismo e temáticas de Gênero como um todo são frequentes no Quero na Escola e já haviam sido atendidos em uma escola de Barueri (SP), em outra no extremo sul da capital paulista e em um colégio do Rio de Janeiro. E no começo de abril a Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, de Diadema também recebe uma atividade do assunto.

É estudante de escola pública e quer pedir uma palestra ou atividade diferente? É só entrar e se cadastrar no site: www.queronaescola.com.br

Ou, se acha que pode ajudar a atender o pedido de algum estudante, dá uma olhada no nosso mapa de pedidos em: www.queronaescola.com.br/pedidos

 

 

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