Debate sobre LGBT é pautado por exemplos pessoais em escola

“Qual é a sua opinião sobre duas mulheres ou dois homens dando beijos em público, na frente de crianças, por exemplo?” Foi essa a pergunta que acendeu o debate sobre diversidade de gênero na Escola Estadual Antonio Manoel Alves de Lima, no Jardim São Luis, em São Paulo. O questionamento de um estudante foi direcionado ao voluntário do Quero na Escola, Felipe de Paula, advogado e integrante do movimento Vote LGBT, mas antes dele, os próprios colegas começaram a responder.

“Eu acho que o problema é a sexualização das crianças em si. As crianças não devem ser expostas a sexo, na minha família nenhuma criança é sexualizada”, expôs Felix, estudante transexual que fez o pedido pela palestra no Quero na Escola e contou ter passado por dificuldades e preconceito durante seu processo de transição do feminino para o masculino.

“Eu sou gay e já sabia desde pequeno que era, não foi porque eu vi alguém se beijando ou não”, acrescentou um outro estudante. “Sou lésbica e passei a vida assistindo a desenhos e novelas que mostravam casais heterossexuais, então acho que essa ideia não faz muito sentido”, disse uma terceira.

Felipe falou sobre as diversas identidades de gênero e a questão do nome social – nome pelo qual a pessoa prefere ser chamada de acordo com seu gênero, diferente daquele que consta em sua certidão de nascimento. “Alguns professores aqui não respeitaram isso, eu entregava a prova e eles falavam que não iam aceitar por conta do nome”, contou Felix sobre um dos desafios que encarou na escola ao se assumir trans.

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Alguns acharam inadequado o beijo homossexual em público, por acreditar que as crianças, ainda em processo de desenvolvimento cognitivo, poderiam ser influenciadas. Outros discordaram e foram dados os exemplos pessoais. Ninguém se ofendeu ou deixou de ouvir o outro em mais de uma hora e meia de discussão até às 22h30.

“Eu pedi esse tema porque é uma coisa que me diz respeito, e muito, ultimamente. Eu senti que minha escola precisava tratar sobre isso, acho que todas as escolas precisam”, contou Felix. “A escola ainda tem um sistema bem fechado para várias coisas, não só nessa questão, e eu espero que ainda aconteçam grandes alterações nesse sentido”.

Antes do encerramento da atividade um professor que acompanhou a atividade compartilhou com o grupo a vontade de parte do corpo docente de criar um grupo contínuo de conversa sobre as questões LGBT dentro da escola e muitos estudantes começaram a colocar suas opiniões. “Eu acho legal ter esse grupo porque não é só com alguém de fora que a gente pode debater isso, mas também em sala de aula”, expôs uma das alunas.

Qualquer estudante de escola pública pode dizer o que gostaria de aprender além do currículo na sua escola no Quero na Escola. Para ver os pedidos existentes e se voluntariar para atender a um deles, clique aqui.

Psicóloga fala sem tabus sobre sexualidade em escola de Parelheiros

“Quem aqui já foi feito de trouxa?” perguntou, causando muitas risadas, a psicóloga especializada em gênero Elânia Francisca para a turma do terceiro ano da Escola Estadual Paulino Nunes Esposo em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo. “Então, ninguém escolhe ser feito de trouxa, né, gente? Certamente foi algum desejo que te levou a ficar com alguém que acabou te fazendo de trouxa depois. E é assim com a identidade de gênero”.

Esse foi o jeito descontraído que ela usou para explicar o que chama de “três pilares da sexualidade”: sexo biológico, identidade de gênero e orientação afetivo-sexual. E assim começou uma discussão sem tabus, perguntando aos estudantes com qual idade eles achavam que uma pessoa começava a ter sexualidade. “Quando acha que está pronto”, disse um. “Quando se interessa por alguém”, disse outra. “Quando nasce”, disse outra, se aproximando da resposta. E Elânia matou a questão: “A sexualidade começa ainda no desenvolvimento, dentro da barriga. Só é preciso ter um corpo para ter sexualidade. Todos nós temos”.

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Elânia levantou temas sérios de forma descontraída (olha a risada da turma!)

Daí, já ficou mais fácil partir para a explicação sobre sexo biológico, o corpo com o qual cada um nasce. “Com pênis, vagina ou intersexo, mas [isso] não diz quem eu sou”, ela explicou. E é aí que entra a orientação afetivo-sexual e da identidade de gênero.

O país que mais mata LGBTs no mundo

Elânia afirmou que o Brasil é o país que mais mata integrantes da comunidade LGBT não apenas para chocar, mas também para explicar a identidade de gênero: CIS (nasceu mulher e se sente mulher) ou TRANS (nasceu mulher mas se sente homem). “Nós temos que pensar na condição das pessoas trans, porque elas vão passar por situações que eu, que sou cis, jamais vou passar”, ela alertou. “A gente precisa entender a identidade para entender e respeitar a diversidade”, completou.

Orientação sexual não é opção e deve ser respeitada. Se eu sou menina e me chamo Elânia, precisam me respeitar me chamando pelo nome que eu quero, e isso deve ser respeitado sempre, está na lei.”

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A psicóloga fez um esquema na lousa para ilustrar os conceitos que explicava

“Quem aqui conhece Liniker e Maria Gadu?”, perguntou Elânia antes de introduzir um último tópico para não deixar dúvidas: a expressão de gênero. Os estudantes se mostraram fãs de ambos, e ainda citaram outras celebridades como Pablo Vittar, uma famosa cantora e drag queen, e a funkeira MC Linn da Quebrada. Elânia explicou então que a expressão de gênero não está necessariamente relacionada à identidade de gênero, são apenas os estereótipos que costumam determinar o que é de homem ou de mulher. Por exemplo, um homem pode ser drag queen – algo associado à expressão de gênero feminina – mas ainda assim ser cis e sentir atração por mulheres.

Um desfecho mais sério

Quando Elânia abriu para perguntas, as dúvidas que acabaram guiando o restante da conversa foram relacionadas a temas como a pedofilia e a hebifilia (adultos que se atraem por adolescentes). A psicóloga deixou claro que quem sofre de um transtorno como esses precisa se tratar, buscar ajuda médica.

Mas fez a ressalva: “Não podemos confundir isso com o componente cultural machista do homem que se sente atraído por meninas mais novas, porque nossa sociedade valoriza o corpo feminino jovem e eles sabem que será mais fácil de ludibriar uma criança ou adolescente”. Ou seja, nem sempre casos assim são um distúrbio, e todos eles são considerados crime.

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A atividade foi resultado da inscrição do Wesley Marques no Quero na Escola, por ser estudante da manhã, ele não conseguiu chegar à tempo para a atividade que foi à noite, mas já estamos providenciando um repeteco! “Muito obrigado por terem ido! Todos elogiaram muito e estão apaixonados pelo projeto!”, foi a mensagem que ele nos enviou, feliz por ter levado o tema a seus colegas.

2.jpg“Muitas coisas que falaram aqui eu nunca tinha ouvido falar”, nos contou Maria Eduarda da Silva, uma das alunas mais participativas durante a atividade, fazendo inclusive um esquema de tudo que foi falado. “Aqui na escola essa discussão é bem aberta, mas ainda assim, muitas pessoas não têm acesso a essas informações”.
Agora, esses estudantes já querem mais: logo depois da atividade chegaram pedidos para conversas sobre Feminismo, Racismo e Diversidade Religiosa. Acha que pode ajudar? É só se inscrever no site e depois entrar na página da escola.