Estudantes e professores falam de orientação sexual com voluntário em escola do Brás

“Já tentaram me ensinar que a criança nasce homossexual, mas eu não consigo acreditar nisso”, compartilhou uma aluna da Escola Estadual Padre Anchieta, no Brás (São Paulo – SP), logo no início da conversa sobre homofobia, organizada pelo Quero na Escola na última sexta-feira (2). O voluntário Fábio Meirelles – que foi por quatro anos Coordenador de Direitos Humanos do Ministério da Educação, responsável por conduzir sua política de gênero e diversidade sexual –, foi à escola para falar do assunto solicitado por outra aluna, Ester Passos.

Fábio começou a conversa perguntando se os alunos acreditavam haver uma opção sexual, ou seja, que as pessoas escolhem por qual sexo vão se sentir atraídas sexualmente. Questionou também qual seria a diferença entre orientação sexual e gênero, e, logo de cara, as opiniões contrastantes começaram a surgir. Ester mostrou estar preparada para o debate e em consonância com o voluntário, elencando todas as orientações sexuais e expressões de gênero que conhecia: “Hetero, Homo, Bi, Assexuado, Trans, Travesti…”.  Já outro aluno mostrou acreditar no contrário: “Tem sim muita gente que virou gay pela moda”.

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Alunos que participaram mais ativamente do debate até o final, contrastando opiniões de forma respeitosa e sem agressões.

Com o tempo, o debate foi ficando cada vez mais quente e Fábio ficou com o papel de mediador das trocas entre os alunos e as alunas que queriam colocar ansiosamente suas opiniões na roda. “Homossexual não quer respeito, quer privilégios. Já vi debates em que eles pedem leis exclusivas! As leis deveriam falar de preconceito no geral”, retomou a aluna que abriu a discussão, com apoio de um colega: “Sim, tem que se preocupar com a população como um todo”.

Frente a esses posicionamentos, Fábio explicou que populações como a LGBT e a negra sofrem, objetivamente, mais preconceito que a sociedade como um todo. “É preciso olhar com uma lupa para essas pessoas que passam por vulnerabilidade”, explicou, reforçando a necessidade de políticas específicas de proteção a minorias. Com a dinâmica de cada um poder falar suas opiniões abertamente, não demorou até que o tema fosse expandido para outros assuntos como o feminismo e o aborto.

Alguns professores também participaram com suas opiniões: “Não existe mãe-solteira, existem mães. Esse estigma de solteira é colocado pela nossa cultura”, pontuou Jean, que dá aulas de Português, pegando carona na fala de uma aluna que relatou ter sido criada apenas pela mãe. Mas o docente que mais impressionou com um relato marcante foi o Fernando Queiroz, professor de Língua Portuguesa:

“Sou professor e ex-aluno dessa escola, onde sofri muito bullying. Se eu pudesse escolher, eu escolheria ser homem, para não sofrer com o preconceito”, ele compartilhou. E continuou, fazendo referência a Luma Andrade, a primeira travesti a concluir um doutorado no Brasil: “A genitália não pode predominar sobre o pensamento. E nem venham falar de igualdade não, porque a gente não tem igualdade”.

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Professor Fernando falando de sua experiência pessoal como homossexual na escola.

Outra afirmação comum entre os alunos e professores foi a de que ninguém seria obrigado a aceitar a orientação sexual alheia, mas sim a respeitar. Ao que Fábio ressaltou que é importante tomar cuidado porque “você pode não aceitar, mas considerando as questões de estereótipos, pode acabar colaborando com a opressão”, explicou, citando a tradicional divisão de cores e brinquedos entre meninos e meninas.

Quem se posicionou, também, foi a Jennifer Santos Sousa, professora de Sociologia da escola, que deu uma aula de tolerância: “Temos que pensar que vivemos dentro de um sistema cultural, transmitido através da educação. Todos vocês são iguais? Aqui na escola mais de 50% são imigrantes e sempre pergunto para eles se a cultura no Brasil é igual à Bolívia, ao Perú, sempre dizem que não”, explicou. “Temos que reconhecer a diferença e possibilitar espaços como esse, em que o diálogo seja possível”, concluiu, reforçando a importância dos debates que, segundo ela e os alunos, são pouco frequentes no ambiente escolar.

A troca de ideias foi proveitosa e, apesar do clima quente, todos se respeitaram e ouviram as opiniões dos outros sem partir para a agressão verbal. Uma cena que ilustra bem essa característica saudável do debate aconteceu na despedida, quando o professor Fernando disse a um aluno: “Olha, eu gosto de você, viu? Não concordo com as suas opiniões, mas gosto muito de você”.

“Foi super legal participar do debate, e principalmente saber que uma estudante de escola pública fez esse pedido. Acho que os alunos, professores e a coordenação da escola gostou muito, até pediu para a gente repetir”, conta Fábio sobre sua experiência como voluntário, afirmando que espera se candidatar mais vezes para conversas assim.

Esse foi o primeiro pedido atendido na Escola Estadual Padre Anchieta, veja todos os pedidos que ainda aguardam voluntários.

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Após dinâmica sobre racismo com voluntária, professora diz que alunos não serão mais os mesmos

“Quem aqui se considera negro?”, foi o primeiro questionamento levantado por Isla Nakano, socióloga que atendeu ao pedido por uma palestra sobre Racismo, feito por Naieslei Carvalho, 16, aluna da Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, Grande São Paulo.

Mostrando que não seria a única a falar ali, Isla continuou perguntando: “Você ou alguém que você conhece já passou por uma situação que você considera racista?” A maioria dos braços se ergueram e logo os jovens começaram a se engajar na conversa. “Por mais que a pessoa pense que nunca passou por isso, uma coisa que acontece é você entrar numa loja e a vendedora já olhar torto pra você. Às vezes você tá no ônibus e a pessoa não quer sentar do seu lado. Acho que isso pode sim ser uma forma de racismo”, compartilhou Érica Meira, aluna do 3º ano.

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Após “quebrar o gelo” com as perguntas iniciais, a socióloga, mestre em estudos étnicos, raciais e migratórios, foi mais longe: pediu que os alunos se reunissem em pequenos grupos para compartilhar situações em que passaram ou presenciaram o racismo. Depois, um integrante de cada grupo foi ao centro da roda contar todos os relatos divididos por seus colegas. Leonardo, também no último ano do Ensino Médio, compartilhou por exemplo o receio de andar em um shopping e sentir o julgamento dos seguranças: “Só porque a gente tem uma aparência da periferia acham que a gente não vai poder comprar nada”.

Ao serem perguntados do porquê do negro receber esse tratamento na sociedade, muitos demonstraram um entendimento histórico e crítico sobre o assunto. “Desde os séculos passados os negros eram vistos como escravos, e essa visão, que eu acho errada, veio continuando. A mídia também coloca isso na nossa cabeça quando os papéis principais das novelas nunca são negros, sendo sempre a empregada doméstica”, dividiu uma das alunas.

De volta aos grupos, dessa vez os estudantes teriam que compartilhar um episódio marcante de suas vidas, não necessariamente ligado ao preconceito. Foi aí que o encontro se intensificou. Alguns contaram sobre divórcios dos pais, falecimentos e assassinatos em suas famílias e até de um tio que teria a intenção de vender órgãos da própria sobrinha para comprar drogas. Naieslei não segurou o choro ao desabafar sobre questões pessoais, sendo aplaudida pelos colegas por sua força: “Tem também a questão de que a minha família não aceita o fato de eu ser lésbica”. 

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Alunos foram ao centro falar sobre suas experiências e de seus colegas de grupo.

Após esse momento de troca, Isla contou que a ideia da dinâmica era exercitar a empatia. “É isso que aproxima a gente. Quando você ouve a história do seu colega, às vezes você nunca nem conversou com ele na escola, mas a gente sente alguma coisa e percebemos que somos próximos”, contou. Um dos alunos concordou: “Na escola a gente é tipo robô. Esse é um momento que a gente pode falar de nós mesmos, sem ser sobre conteúdo”, seguido por outra aluna, que afirmou nunca ter tido essa oportunidade de conversar sobre questões pessoais dentro da escola.

Para Isla, também foi uma oportunidade única de guiar uma palestra diferente do que ela imaginava: “Foi tudo muito inesperado, talvez por isso tenha sido tão incrível e me surpreendeu muito! Eu cheguei lá e vi que os conceitos que eu tinha separado para falar não tinha como fazer daquele jeito, e eles acabaram me ensinando como acompanhar os pensamentos deles, as demandas deles”, ela conta. A voluntária também saiu da sala emocionada: “Eu fiquei extremamente impressionada com algumas pessoas que estavam na sala, gente com trajetória de vida muito intensa, com histórias inexplicáveis e com um pulso de vida, com uma vontade de construir algo novo, que me emocionou demais! Essa troca foi a coisa mais bacana”. 

“As pessoas que vão sair daqui hoje não são as mesmas que entraram”, afirmou a professora de Sociologia, Gilnair Pereira, que aproveitou para estimular os jovens a fazerem mais pedidos no Quero na Escola. “Eu achei maravilhoso, aprendi muito. Consegui perceber aqui alguns problemas que eles tem que eu não havia percebido antes e que vou procurar a partir de agora trabalhar na sala de aula”, contou.

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Professora Gil, de Sociologia, conversa com os alunos depois da palestra.

Ela e o coordenador pedagógico da escola contaram que percebem entre os alunos casos de racismo daqueles que por muitos são considerados “normais”, como o uso de apelidos, mas que o preconceito fica mais aparente contra jovens que se assumem homossexuais. “É que o Brasil não é um país racista, né?”, ironiza a professora, “mas só quem tem a pele mais escura, quem é mulher, homossexual, ou está fora do padrão de beleza, sabe como é”.

“Foi melhor do que eu esperava. Não achei que iam se envolver desse jeito, que eu ia desabafar e acabar chorando. Eu vi pessoas que eu nunca falei na vida contando histórias e me senti amiga delas por ter histórias parecidas”, conta Naieslei, dividindo mais uma ideia para a escola: “Até conversei com a professora Gil e a gente teve a ideia de montar um grupo de apoio, para poder conversar assim pelo menos uma vez na semana, juntar os alunos que querem desabafar e querem ser ajudados”.

A EE Anecondes Alves Ferreira já havia recebido duas palestras, sobre Direitos Humanos, uma em março e a outra em maio deste ano depois de um pedido no Quero na Escola. Veja a página da escola no site, pode ser que tenha algum assunto em que você pode ajudar.

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Especialistas em Direitos Humanos atendem aluno e vão a escola estadual debater maioridade penal

Dois especialistas em Direitos Humanos foram voluntariamente à escola estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, na noite desta terça-feira para debater sobre redução da maioridade penal. Fabiana Leibl, advogada especializada no tema, e Sócrates Magno, educador e roteirista do filme “É disso que eu tô falando”, que trata do assunto, não se conheciam e nem a ninguém da instituição, mas se motivaram por um pedido publicado no Quero na Escola há 10 dias e se ofereceram para ajudar.

No auge do debate sobre a redução da maioridade penal no final de 2015, Aderson da Silva Vieira, 17 anos, se assustou com a postura dos colegas. “Eles reproduziam frases feitas que eram contra eles mesmos”, comentou ao explicar o pedido que fez pelo site, aberto a qualquer estudante de escola pública para que digam o que gostariam de aprender além do currículo obrigatório.

Duas turmas, incluindo a de Aderson, foram reunidas no laboratório de Ciências para a o evento. O zum zum zum da turma silenciou logo no início da exibição do curta-metragem. Aos oito minutos uma cena de um show dos Racionais MC’s cantando Negro Drama  provocou um coral baixinho.

Os especialistas apresentaram dados sobre quão poucos são os crimes hediondos cometidos por adolescentes (0,1%), falaram do quanto custa manter um preso e questionaram a quem interessam tais gastos, mas principalmente sobre o determinismo que leva muito mais pobres e negros a cometer delitos do que brancos e ricos.

“O jovem vai por falta de perspectiva, pegar na arma é o último ato de desespero dele”, comentou Sócrates, que também dá aulas de Ética e História da Arte e leciona para adolescentes da Fundação Casa. “Eu pergunto para os jovens brancos da elite o que eles querem ser e me respondem ‘médico’, ‘engenheiro’. E vão ser. Pergunto a mesma coisa para os internos da Fundação e eles querem ‘ser alguém’. Foram levados a vida toda a acreditar que não são alguém”

Os dois comentaram sobre o papel de programas de noticiário policial nos argumentos pela redução. “A gente vê as pessoas falarem ‘leva para casa’, mas não é de caridade que se trata, mas de justiça com quem já foi penalizado historicamente”, comentou Fabiana.

OFICINA DE DIADEMA 3As respostas dos estudantes vieram em exemplos bem próximos:

“Eu estou só no terceiro ano do Ensino Médio e já vi amigos morrerem. Desde a 5ª série que muita gente foi parando de estudar. A vida vai complicando muito cedo na periferia”

“Meu tio foi preso com 15 anos, eu ia visitá-lo”

“Meu irmão já foi pra Fundação Casa”

“As pessoas dizem que conscientização tem que vir de casa, mas como se os nossos pais tiveram ainda menos oportunidades do que a gente?”

“Aqueles apresentadores falam aquelas coisas e vão de carrões para suas mansões e o trabalhador que já ralou o dia inteiro e ficou no transporte horas acaba assistindo aquilo de um cara que não sabe nada da realidade da periferia”

OFICINA DE DIADEMA 2Tímido, Aderson apenas observou o debate. Os colegas e a coordenadora pedagógica, Verônica Silva do Nascimento, que foi contatada quando já havia voluntários à disposição, se surpreenderam com o protagonismo. “Foi uma excelente surpresa, é um menino tímido e deu uma contribuição excelente para a escola”, comentou.

Professor de Filosofia, Marcelo Cruz, que acompanhou os debates se disse “inspirado”

OFICINA DE DIADEMA 1O professor de Filosofia, Marcelo Cruz, que também acompanhou o debate, se disse “inspirado”. “Várias coisas que eles citaram podem render nas aulas. Foi muito bom ver os alunos tão compenetrados e participativos”.

A escola pretende manter o tema em debate e continua aberta a novas intervenções de especialistas voluntários inclusive para as demais salas, que não puderam ser atendidas de uma só vez. O Quero na Escola está aberto a qualquer estudante de escola pública que quer aprender algo além do currículo obrigatório.