Escola parceira do Quero na Escola se destaca por protagonismo dos estudantes

Por Natália Sierpinski

A Escola Estadual Luciane do Espírito Santo, que fica em Lajeado, extrema zona leste de São Paulo, foi a escola com mais atividades recorrentes do Quero na Escola em 2018. A maioria das ações foram realizadas durante os períodos de aulas das disciplinas eletivas, que ocorrem por ser uma unidade que faz parte do Programa de Ensino Integral (PEI). Fomos acompanhar as apresentações que encerraram esse processo no fim do ano e trazemos relatos para ajudar com ideias e inspirações.

Cada projeto estava em uma sala de aula diferente, ficando a critério dos alunos e dos convidados escolherem quais conhecer, na ordem que achassem mais relevantes. Os projetos de eletivas abarcaram diversos temas: gênero e feminismo, história em quadrinhos, corpo humano e primeiros socorros, turismo, arquitetura e engenharia, universo e astronomia, reciclagem, nutrição, educação física, entre outros. Além das salas temáticas, também houve apresentações musicais, uma peça baseada no programa Chaves, por conta dos trabalhos de Turismo e um show com luz negra feito pelo grupo que trabalhou Física.

Ao chegar nas salas, os estudantes responsáveis apresentavam algo sobre ela. Havia falas, dinâmicas, perguntas interativas e várias formas de mediações que foram criadas pelos próprios estudantes para passar adiante os conteúdos que eles haviam aprendido ao longo do ano. As eletivas fazem parte do projeto da escola que visa o protagonismo estudantil e o projeto de vida dos alunos, em que eles são desafiados a pensarem em quais conhecimentos e temas são relevantes para complementar o seu aprendizado. A escola também conta com um grêmio estudantil ativo, alunos líderes de sala e um grupo de 15 alunos acolhedores, que apresentam a instituição para as pessoas novas e fazem integração e acolhimento a outras escolas do entorno.

O evento também realizou uma homenagem a patronesse da escola. Luciane do Espírito Santo foi professora de educação infantil que dedicava sua prática principalmente para os estudantes que apresentavam mais dificuldade de aprendizado, tornando-se um exemplo e sendo muito admirada enquanto profissional. Ela faleceu em 2003, decorrente a um câncer e o nome da escola é uma homenagem ao trabalho que realizou no bairro. A diretora da escola, Cacilda de Souza Lima, falou da importância dos estudantes conhecerem a história de sua escola e sua trajetória. Também em 2018, foi feito um vídeo pelos estudantes sobre esse processo de escolha da patronesse da escola que pode ser conferido aqui.

Durante o ano passado, voluntários do Quero na Escola realizaram nesta unidade atividades sobre Projeto de Vida, Engenharia Civil, Turismo, Recursos Humanos, Engenharia Ambiental, Psicologia, Jornalismo, Medicina Veterinária, Fotografia, Orientação Vocacional, Publicidade e ainda uma palestra sobre descarte correto de pilhas e baterias. Para 2019 já temos novas ações agendadas e também pedidos que aguardam a inscrição de voluntários, como é o caso de Arquitetura e Depressão e Ansiedade.

E você, estudante, se sentiu inspirado a mudar a sua escola? nos mande um pedido por aqui! E para quem se inspirou a ser voluntário encontre um pedido próximo a você e sobre um tema do seu repertório aqui

 

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Voluntária usa documentário para discutir aborto em escola pública de Guarulhos

O estudante Caique Marcolino, da Escola Estadual João Luiz de Godoy, em Guarulhos, não esconde o motivo de ter feito o pedido por uma “Conversa sobre aborto” no Quero na Escola: “pedi porque é um tema polêmico, gosto de debates”. Sabendo disso, a jornalista Marcelle de Souza exibiu para a turma o documentário Clandestinas, um curta-metragem com depoimentos de mulheres reais que optaram pelo aborto. Antes de começar ela deixou a pergunta: “vocês acham que essas mulheres deveriam ser presas?”.

Marcelle pesquisou a questão do aborto em seu mestrado e agora inicia seu doutorado no mesmo tema, ambos na PROLAM-USP (Programação de Pós-graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo). Ela deu um panorama da questão do aborto no Brasil e no mundo. “O Brasil está mais perto de países da África ou do Oriente Médio nos números de mortes decorrentes de aborto do que dos países desenvolvidos que já legalizaram”, explicou.

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Alguns dados apresentados por Marcelle para os estudantes.

O assunto é tão tabu que depois da apresentação, os estudantes não expuseram suas dúvidas em frente aos demais colegas. “Fiquei surpreso porque o pessoal geralmente fala bastante”, disse Caique. “Mas acho que na frente de todo mundo ficaram com vergonha”. Apesar do silêncio em público, chegando em casa Marcelle foi checar sua caixa de entrada e já havia recebido um e-mail de uma aluna elogiando a apresentação, agradecendo por sua palestra e reforçando a importância de abordar esse tema na escola. “Fiquei até emocionada”, contou a voluntária.

Integrante do grêmio estudantil, o jovem é autor de mais pedidos no site e contou que os estudantes estão se organizando para levar cada vez mais projetos diferentes para dentro de sua escola. “Vamos arrumar o jardim aqui da frente e fazer um concurso de desenho”, ele contou. “Os ganhadores vão ser grafitados nos banheiros da escola, para cobrir as pixações”.

Quer levar mais atividades à essa escola? Dá uma olhada na página de pedidos dela no Quero na Escola e se inscreva para ajudar.

 

Meninas pra cá, meninos para lá, mas não é baile. É opressão

“Não se nasce mulher: torna-se”. A famosa frase de Simone de Beauvoir guiou uma atividade de feminismo solicitada por uma aluna na Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, e guiada por Luana Alves e Ana Carolina, do Coletivo Juntas. Os estudantes se reuniram em grupos para conversar sobre o que entendiam dela e exemplificar como essa afirmação se aplicava em algum momento de suas vidas. No mesmo dia, outra atividade ilustrou a diferença de gênero de forma bem visual e didática.

Na hora de compartilhar as reflexões e histórias, uma das estudantes contou sobre como precisou se “tornar mulher” muito cedo após a morte de sua mãe e a prisão de seu pai, associando a expressão ao fato de ter amadurecido e assumido diversas responsabilidades com apenas 14 anos. Outra aluna contou da experiência em sua casa, onde ouve da avó paterna que ela, sua mãe e as irmãs deveriam fazer todo o trabalho doméstico – mesmo que a mãe trabalhe fora.

Luana chamou atenção para o quanto os relatos eram parecidos entre si, descrevendo situações muito similares, mesmo em casas e situações diferentes. Foram poucas as falas que destoaram do padrão, como a da aluna que afirmou estar noiva e dividir todas as tarefas de casa com seu companheiro.

Um jeito simples de mostrar as diferenças

Antes disso, Luana quis mostrar como se davam essas desigualdades com uma simples dinâmica. “Vou fazer algumas perguntas para vocês. Se a resposta à pergunta for sim, vocês dão uma passo para a direita. Se for não, um passo para esquerda”, anunciou Luana, e seguiu com perguntas como: Já me falaram para não sair de casa com determinada roupa para não parecer vulgar; Já me falaram para não beijar muitas pessoas para não ganhar fama; Já lavava louça e limpava a casa antes dos 10 anos… entre outras.

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Sala já se dividindo “naturalmente” entre meninos e meninas durante a atividade.

Depois da dinâmica a sala ficou assim, como mostra a foto: meninas de uma lado, meninos do outro, sendo que nenhuma pergunta falava diretamente sobre gênero. Foi a partir dessa provocação que Luana começou a contar mais sobre a luta feminista desde as sufragistas, que reivindicaram o direito da mulher ao voto, principalmente no Reino Unido e nos Estados Unidos, passando pelas ideias de Simone de Beauvoir, que aprofundaram os objetivos do feminismo para além dos direitos políticos, até as lutas atuais, mais ligadas a recortes de orientação sexual, raça e classe social.

Existe exagero no feminismo?

Quando as voluntárias abriram para as últimas considerações e perguntas, Naieslei Lancaster introduziu um tema muito abordado ultimamente: os posicionamentos considerados como exagerados de algumas feministas. E deu o exemplo  de não se depilar.

A isso, Luana respondeu com sua opinião pessoal: “Para mim é questão de escolha, se a pessoa não estiver prejudicando outra, eu não me importo com o que ela está fazendo com seu corpo”. E respondeu de forma parecida a um professor que acompanhou parte da atividade, quando ele perguntou sua opinião sobre “o excesso de feminismo nos relacionamentos”: “Vejo feminismo como liberdade, e não consigo imaginar algo como excesso de liberdade”.

Escola recordista do Quero na Escola

Sabia que a Escola Anecondes Alves Ferreira foi a que mais recebeu voluntários do Quero na Escola? Isso por conta do engajamento dos estudantes – Aderson, Naieslei e Thales e, agora, a Gabrielly – que seguem pedindo temas variados; e também devido à parceria da gestão, principalmente com a coordenadora Verônica Nascimento, sempre aberta e ágil na organização das atividades. Ela é tão parceira que até estreou em nosso vídeo institucional.

Veja a página da escola no site para ver se consegue atender algum desses pedidos.

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Feministas marcam o mês da mulher falando de gênero nas escolas

No Quero na Escola o Mês Internacional da Mulher foi marcado por atividades não de comemoração, mas de discussão sobre igualdade de gênero em escolas públicas de São Paulo. Antes e depois do 8 de Março, voluntárias foram a escolas estaduais de São Paulo falar com meninas e meninos sobre o tema.

Na véspera do 8 de março, a Escola Estadual Padre Anchieta, no bairro do Brás em São Paulo, recebeu duas atividades diferentes com feministas que foram conversar sobre os desafios para combatermos a desigualdade de gênero. Na semana passada, teve mais: a jornalista Lizandra Magon de Almeida foi à Escola Estadual Caetano de Campos, também em São Paulo, na Aclimação, dividir sua experiência como feminista e editora de livros do gênero na Editora Pólen.

Derrubando o patriarcado entre uma jogada e outra

Na manhã do dia 7, no Brás, quem guiou a atividade com duas turmas do 2º ano do Ensino Médio foram as meninas do Fast Food da Política, um projeto que pretende explicar as instituições e trâmites políticos de forma lúdica. Por entender que a questão de gênero é transversal e essencial para o debate político, elas criaram o Molho Especial, com jogos voltados especificamente para esse tema.

Elas começaram questionando o que os estudantes acreditavam ser Política e Machismo, dois temas essenciais de serem discutidos e muitas vezes considerados como tabus. Sobre a Política, fizeram principalmente críticas: corrupção, vergonha, alegaram ser algo chato e desinteressante. Já sobre o Machismo, as respostas variaram: “É quando o homem acha que a mulher é incapaz de exercer profissões, de entrar na política, de achar que ela não pode usar uma roupa decotada, que é feita para lavar e passar” ou “Machismo é algo que existe a muito tempo e só recentemente as mulheres querem ter direitos iguais, na minha opinião é muito cedo para isso acabar”.

Com a discussão iniciada, foi hora de começar a jogar “A Queda do Patriarcado”. O jogo consiste em ir desmontando um pilar composto por blocos – cada um representando uma questão específica de desigualdade de gênero da nossa sociedade – e ir refletindo sobre as questões: falta de acesso a cargos altos, desigualdade salarial, feminicídio, pornografia, entre outras.

 

Cada peça abre uma discussão, por exemplo, um dos alunos retirou a peça Pornografia e revelou aos colegas o fato que “Segundo estudos de 2015, a expectativa de vida média entre atrizes pornô é de 36,2 anos”. E os estudantes foram levantando hipóteses do porquê: doenças, depressão… O jogo segue assim, até que toda a estrutura seja desmontada e uma nova sociedade possa se montar a partir de novos blocos.

Empoderamento feminino a partir de informação

À noite, no mesmo dia 7, foi a vez da Ana Paula Souza, fundadora do site Lado M, falar sobre empoderamento feminino e desigualdade de gênero para estudantes do 3º ano do Ensino Médio e do EJA. Ela levantou diversas questões da cultura patriarcal e machista de nossa sociedade, inclusive levando algumas experiências pessoais de sua infância no Belém do Pará, além de outros exemplos de situações tipicamente machistas do cotidiano.

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Ela destacou muito a questão dessa cultura não afetar apenas as mulheres, mas também aos homens e aos homossexuais. Por apresentarem características mais ligadas ao sexo feminino, como sensibilidade, homens podem sofrer preconceito: “Por causa dessa cultura que não tolera o feminino, as características femininas, tanto em mulheres quanto em homens, resultam em formas de violência”.

E seguindo na questão da violência, Ana falou da formação diferente entre meninos e meninas e dos estereótipos atrelados ao gênero. “Os homens são mais estimulados desde pequenos a assumirem posição de liderança, a serem os chefes da casa e no trabalho. O problema disso é que quando a gente cresce, cria-se uma relação de desigualdade em que um manda o outro obedece, é daí que começam as situações de violência doméstica”, ela explica.

Na roda de conversa, houve espaço para os estudantes expressarem suas ideias. Um dos alunos apontou que, apesar das questões levantadas, a sociedade e os direitos das mulheres já avançaram bastante. Outra aluna foi mais crítica: “O homem ainda, tem muitos, que tem a cabeça de ogro. A mulher é que tá se impondo para deixar de receber ordens”.

Sexta-feira à noite na escola debatendo Feminismo

Na Escola Estadual Caetano de Campos um grupo de alunos já entrou no fim de semana refletindo sobre questões sérias. Na sexta-feira passada, dia 17, a jornalista Lizandra Magon de Almeida foi até lá bater um papo sobre questões de gênero, um pedido da Thayline Cunha, que é estudante do 3º ano do Ensino Médio e integrante do Grêmio Estudantil.

Depois de introduzir o tema, levantando alguns dados sobre a desigualdade de gênero, a voluntária abriu a discussão para ouvir os questionamentos dos alunos. Demorou um pouco para quebrar o silêncio inicial da timidez, mas a discussão logo deslanchou quando um dos estudantes presentes disse: “Acho que isso aí é coisa das nossas avós, já passou já, hoje a gente já sabe que não é assim, já melhorou muito”. Frente ao posicionamento “otimista” do colega, as estudantes presentes e Lizandra expuseram alguns indícios de que estamos longe da igualdade de gênero.

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Seguindo a conversa, Brenda, do 2º ano do Ensino Médio, levantou a questão do aborto, perguntando quem dos presentes era a favor da descriminalização, uma das principais pautas do movimento feminista. A partir daí, o debate foi longe, dividindo a sala praticamente ao meio entre as que apoiavam ou não a mudança na lei. Uma aluna rebateu a questão dizendo que concordava com o aborto em casos de estupro, mas não quando há consentimento da mulher. Brenda, que se mostrou a favor da descriminalização, reforçou: “não entendo qual a diferença, já que (se for considerar que é vida desde a concepção), a vida que está dentro da mulher é a mesma”.

O horário de aula acabou às 22h e cerca de 15 estudantes permaneceram na sala discutindo o tema. Até que a conversa seguiu pelos corredores entre alunos e professores presentes. Na saída, as alunas foram pensando outras atividades abordando temas feministas que poderiam realizar: “acho que precisamos muito falar sobre o feminismo negro aqui, trazer uma pessoa trans para falar da sua experiência”.

Lizandra, que edita livros com temática de gênero em sua editora, a Pólen, doou para a biblioteca da escola um exemplar do livro “Você já é feminista”, escrito por várias mulheres e organizado pela Revista AzMina. Segundo Thayline, primeira a emprestá-lo, a fila para ler depois dela já está grande.

Pedidos de conversar sobre Feminismo e temáticas de Gênero como um todo são frequentes no Quero na Escola e já haviam sido atendidos em uma escola de Barueri (SP), em outra no extremo sul da capital paulista e em um colégio do Rio de Janeiro. E no começo de abril a Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, de Diadema também recebe uma atividade do assunto.

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Ou, se acha que pode ajudar a atender o pedido de algum estudante, dá uma olhada no nosso mapa de pedidos em: www.queronaescola.com.br/pedidos

 

 

Estudantes e professores falam de orientação sexual com voluntário em escola do Brás

“Já tentaram me ensinar que a criança nasce homossexual, mas eu não consigo acreditar nisso”, compartilhou uma aluna da Escola Estadual Padre Anchieta, no Brás (São Paulo – SP), logo no início da conversa sobre homofobia, organizada pelo Quero na Escola na última sexta-feira (2). O voluntário Fábio Meirelles – que foi por quatro anos Coordenador de Direitos Humanos do Ministério da Educação, responsável por conduzir sua política de gênero e diversidade sexual –, foi à escola para falar do assunto solicitado por outra aluna, Ester Passos.

Fábio começou a conversa perguntando se os alunos acreditavam haver uma opção sexual, ou seja, que as pessoas escolhem por qual sexo vão se sentir atraídas sexualmente. Questionou também qual seria a diferença entre orientação sexual e gênero, e, logo de cara, as opiniões contrastantes começaram a surgir. Ester mostrou estar preparada para o debate e em consonância com o voluntário, elencando todas as orientações sexuais e expressões de gênero que conhecia: “Hetero, Homo, Bi, Assexuado, Trans, Travesti…”.  Já outro aluno mostrou acreditar no contrário: “Tem sim muita gente que virou gay pela moda”.

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Alunos que participaram mais ativamente do debate até o final, contrastando opiniões de forma respeitosa e sem agressões.

Com o tempo, o debate foi ficando cada vez mais quente e Fábio ficou com o papel de mediador das trocas entre os alunos e as alunas que queriam colocar ansiosamente suas opiniões na roda. “Homossexual não quer respeito, quer privilégios. Já vi debates em que eles pedem leis exclusivas! As leis deveriam falar de preconceito no geral”, retomou a aluna que abriu a discussão, com apoio de um colega: “Sim, tem que se preocupar com a população como um todo”.

Frente a esses posicionamentos, Fábio explicou que populações como a LGBT e a negra sofrem, objetivamente, mais preconceito que a sociedade como um todo. “É preciso olhar com uma lupa para essas pessoas que passam por vulnerabilidade”, explicou, reforçando a necessidade de políticas específicas de proteção a minorias. Com a dinâmica de cada um poder falar suas opiniões abertamente, não demorou até que o tema fosse expandido para outros assuntos como o feminismo e o aborto.

Alguns professores também participaram com suas opiniões: “Não existe mãe-solteira, existem mães. Esse estigma de solteira é colocado pela nossa cultura”, pontuou Jean, que dá aulas de Português, pegando carona na fala de uma aluna que relatou ter sido criada apenas pela mãe. Mas o docente que mais impressionou com um relato marcante foi o Fernando Queiroz, professor de Língua Portuguesa:

“Sou professor e ex-aluno dessa escola, onde sofri muito bullying. Se eu pudesse escolher, eu escolheria ser homem, para não sofrer com o preconceito”, ele compartilhou. E continuou, fazendo referência a Luma Andrade, a primeira travesti a concluir um doutorado no Brasil: “A genitália não pode predominar sobre o pensamento. E nem venham falar de igualdade não, porque a gente não tem igualdade”.

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Professor Fernando falando de sua experiência pessoal como homossexual na escola.

Outra afirmação comum entre os alunos e professores foi a de que ninguém seria obrigado a aceitar a orientação sexual alheia, mas sim a respeitar. Ao que Fábio ressaltou que é importante tomar cuidado porque “você pode não aceitar, mas considerando as questões de estereótipos, pode acabar colaborando com a opressão”, explicou, citando a tradicional divisão de cores e brinquedos entre meninos e meninas.

Quem se posicionou, também, foi a Jennifer Santos Sousa, professora de Sociologia da escola, que deu uma aula de tolerância: “Temos que pensar que vivemos dentro de um sistema cultural, transmitido através da educação. Todos vocês são iguais? Aqui na escola mais de 50% são imigrantes e sempre pergunto para eles se a cultura no Brasil é igual à Bolívia, ao Perú, sempre dizem que não”, explicou. “Temos que reconhecer a diferença e possibilitar espaços como esse, em que o diálogo seja possível”, concluiu, reforçando a importância dos debates que, segundo ela e os alunos, são pouco frequentes no ambiente escolar.

A troca de ideias foi proveitosa e, apesar do clima quente, todos se respeitaram e ouviram as opiniões dos outros sem partir para a agressão verbal. Uma cena que ilustra bem essa característica saudável do debate aconteceu na despedida, quando o professor Fernando disse a um aluno: “Olha, eu gosto de você, viu? Não concordo com as suas opiniões, mas gosto muito de você”.

“Foi super legal participar do debate, e principalmente saber que uma estudante de escola pública fez esse pedido. Acho que os alunos, professores e a coordenação da escola gostou muito, até pediu para a gente repetir”, conta Fábio sobre sua experiência como voluntário, afirmando que espera se candidatar mais vezes para conversas assim.

Esse foi o primeiro pedido atendido na Escola Estadual Padre Anchieta, veja todos os pedidos que ainda aguardam voluntários.

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Uma conversa na escola sobre Feminismo

A primeira aula da última segunda-feira (15) foi diferente para uma turma de alunos do ensino médio da Escola Estadual Myrthes Theresinha Assad Villela, em Barueri, na Grande São Paulo. Eles começaram o dia com uma palestra e um debate sobre Feminismo, tema solicitado por uma aluna no Quero na Escola.

A advogada Gabriela Ponte Machado se voluntariou para conversar com os alunos e chegou às 7h da manhã para o bate-papo com os estudantes. “Foi muito legal, superou minhas expectativas. No começo eles estavam meio tímidos, mas aos poucos fui abrindo para perguntas e rolou um megadebate, sobre vários temas, aborto, violência doméstica. Achei os estudantes bem informados, várias meninas superengajadas, conscientes, com bom nível de argumentação. Foi muito bom!”, resumiu a advogada.

WhatsApp Image 2016-08-15 at 14.30.26Gabriela estudou em seu mestrado uma disciplina sobre Jurisprudência na Suprema Corte dos Estados Unidos, e como as decisões dos juízes levaram em conta questões feministas. “Sou muito interessada no tema, leio e pesquiso a respeito”, disse.

Gabriela iniciou sua fala mostrando duas frases, “Bela, recada e do lar”, da revista Veja, usada para definir Marcela Temer, esposa do presidente em exercício,  Michel Temer, e outra de um artigo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, “O feminismo do século 21 é a ideia de que quando todos são iguais, nós somos mais livres”.

“Comentei sobre este artigo do Obama, no qual ele fala sobre suas filhas e sobre como ele tinha mudado o pensamento dele ao longo dos anos, contei sobre o surgimento do feminismo, disse que o movimento tem muitas vertentes, cada uma com suas particularidades. Abordei também as dificuldades que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho, a luta da menina paquistanesa Malala, pela inclusão das mulheres na educação, e sobre o feminismo negro. Deixei claro que eu, enquanto mulher branca, loira, de olho azul, não posso falar com propriedade, mas que estava ali contando para eles que existe esse movimento. Uma aluna se identificou e falou sobre questões que as mulheres negras enfrentam”.

WhatsApp Image 2016-08-15 at 14.30.23A aluna que fez o pedido, Letícia Fernandes, de 17 anos, aprovou a discussão. “Os alunos participaram bastante. Fiz esse pedido, porque tem muito homem que acha que feminismo significa que a mulher quer se colocar acima dos homens e não é isso, é uma questão de igualdade, como o Obama falou”, relatou.

Para a Letícia, se não fosse o pedido no Quero na Escola, dificilmente um debate envolvendo alunos de várias turmas diferentes teria acontecido. “A gente teria debatido na aula de Sociologia, mas não assim como todo mundo envolvido. O projeto é muito bonito, espero que mais gente conheça e participe”, disse a estudante.

A professora de Sociologia Tatiane Constâncio da Cruz, que acompanhou a atividade, concorda que a interação entre as turmas foi um ponto positivo. “Eu gostei bastante, mas os alunos gostaram mais ainda, ficaram muito empolgados. Achei interessante quando ela falou sobre o Obama e sobre o mercado de trabalho e que ela, como advogada, tem que enfrentar um universo profissional predominantemente masculino”, apontou a professora.

Cerca de 50 alunos participaram da atividade. A escola e a voluntária pretendem repetir a dose para atender mais estudantes interessados.

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Um pedido que atendeu quase 200 pessoas

O pedidos de palestra contra racismo e machismo feito aqui no Quero na Escola no começo foi atendido no dia 21 de outubro de 2015. Além da menina de 16 anos que registrou o pedido, outros 170 alunos e nove professores assistiram à palestra dada por três voluntárias em Barragem, o bairro da capital paulista mais distante do centro.

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Barragem é o bairro mais extremo da capital paulistana, a 48 quilômetros do centro. Apenas uma linha de ônibus, com o sugestivo nome de Terminal Parelheiros, chega ao local que ainda não tem nem imagem disponível no Google Street View.

Um simples pedido de uma aluna, no entanto, fez três voluntárias ignorarem o distanciamento e irem até a única escola do bairro.

Jéssica Rodrigues, 16 anos, assumiu a presidência do primeiro grêmio oficial da Escola Estadual Joaquim Alvarez Cruz. Uma das bandeiras da chapa, só de mulheres, era o combate ao machismo e ao racismo. E ela encontrou uma forma de trazer a pauta para a escola em apenas duas semanas.

Por indicação de uma amiga nas redes sociais, ela encontrou o site Quero na Escola, canal para qualquer aluno de escola pública pedir o que quiser aprender além do currículo obrigatório. Em meio a outros pedidos como fotografia, cerâmica e quadrinhos, fez o seu: uma palestra contra racismo e machismo.

No mesmo dia em que a solicitação apareceu no site, usuários começaram a marcar pessoas com engajamento nos temas e três voluntárias se cadastraram. Uma delas, a jornalista Marcella Chatier, avisou que não ia sozinha. “Estamos organizando um bonde para atender a aluna”.

A organização do site conversou com a direção da escola para saber se a palestra poderia ocorrer na instituição ou se teria de ser em outro lugar. Com a intermediação do grêmio, a escola não apenas aceitou receber as visitas, como liberou todos os alunos e professores do período noturno para assistir.

Na quarta-feira passada, as feministas Marcella e Martha Lopes, jornalistas sócias na empresa de curadoria criativa Cobogó, e a presidente da ONG de empoderamento feminino Casa de Lua, Vanessa Rodrigues, saíram da Vila Madalena às 16h55 para a missão. Chegaram pontualmente às 19h na escola.

Os rostos desconhecidos foram logo reconhecidos pelos alunos. “Chegaram as palestrantes”, gritou um rapaz pela grade para que o portão fosse aberto. Jéssica e as demais integrantes do grêmio receberam as voluntárias, seguidas pela coordenadora pedagógica do período noturno, Benedita Pereira Martins.

Escolhido o espaço do pátio, as alunas avisaram nas salas e um a um 170 alunos trouxeram suas cadeiras e se enfileiraram em frente ao palco. Nove professores ficaram de pé nos fundos ou na lateral.

Foi tanta gente que fez falta um microfone. “A gente tem, mas alguém esqueceu a bateria dentro e oxidou”, disse a coordenadora. Durante todo o ano o equipamento não havia sido usado.

A palestra incluiu vídeos de campanhas por igualdade de gênero, falou de diferença de acesso à educação e ao esporte, de direito a sexualidade, gravidez, da necessidade de gênero aparecer nos planos educacionais e de racismo. Quando iam encerrar, umas das meninas tomou coragem e falou que queriam abordar o Top 10, bullying comum na periferia de São Paulo que também ocorreu naquela escola.

Vanessa Rodrigues, usou um tom de voz mais elevado para repudiar a agressão. “Isso pode acabar com a vida de uma menina ou deixar marcas muito sérias”. Diante das voluntárias, as jovens tomaram coragem e impressionaram as feministas experientes.

“Nós vivemos as mesmas coisas que elas, mas esta geração tem mais repertório e coragem”,

comentou Martha. “Queremos voltar e falar mais vezes com elas, foi muito enriquecedor e pode ser ainda mais em grupos menores”, completou Marcella.

Jéssica contou que se organiza com outras mulheres na luta contra o machismo na região. A família dela sofre com a questão desde que a irmã era adolescente e sofreu um bullying que venceram com a família unida. “Não é um assunto fácil de abordar, vocês aqui dão muita força para a gente seguir firme”, agradeceu.