Na véspera de feriado, alunos viajam pela fotografia

Em plena véspera de feriado de Páscoa, o Quero na Escola estreou, em Curitiba, no Paraná. Um grupo de 20 alunos do Ensino Médio do Colégio Estadual Maria Aguiar Teixeira não arredou o pé da escola depois da aula e ficou para acompanhar a palestra do fotógrafo Marcio Pimenta sobre fotojornalismo.

Marcio é fotógrafo freelancer especializado em documentários e viagens, colaborador de publicações como National Geographic, Rolling Stone, The Guardian e El País. Recentemente, ele esteve em Mariana, Minas Gerais, registrando a tragédia que aconteceu na região após o rompimento de uma barragem de dejetos.

“Falei sobre o cotidiano de um fotojornalista freelancer: como é caro fazer Jornalismo, a importância de se desfazer de preconceitos, gastar a sola do sapato para ir a lugares aonde ninguém quer ir, sobre como a fotografia lança uma luz na escuridão. Foi realmente uma experiência incrível”, resumiu.

Marcio exibiu em um projetor os trabalhos de Mariana, fotos de cortadores de cana que trabalham em regime análogo a escravidão, o concurso de transexuais (ensaio“Coragem de ser quem são”), e haitianos no Brasil (“A difícil travessia do Haiti ao Brasil e os preconceitos que sofrem aqui”).

“Foi sensacional. Adoramos demais a presença do Marcio, e nos emocionamos com o trabalho dele. O projeto [Quero na Escola] é um veículo de grandes construções intelectuais, uma porta cultural para nós”, disse a aluna Ana Paula de Carvalho, que fez o pedido por uma aula de fotografia.

Palestrante experiente, o fotógrafo ficou impressionado com a participação dos alunos e contente em participar. “Voltar a uma escola, e ainda por cima pública, foi uma ótima experiência. A Ana Paula é incrível e muito inteligente. Fez ótimas perguntas”, relatou.

Sonia Freitas, diretora auxiliar do colégio, definiu o encontro como uma “aula de Geografia”. “Ele projetou as fotografias e foi contando sobre os lugares que visitou. Os alunos ficaram encantados e participaram muito, fazendo várias perguntas.”

Voluntário e aluna protagonista juntos 

Empolgado, Marcio adiantou que tem viagens marcadas nas próximas semanas para Campina Grande (Paraíba), Salvador, Aracaju e Porto Alegre e se dispôs a atender mais alunos inscritos no Quero na Escola.

Interessados podem se inscrever no www.queronaescola.com.br. O site é aberto para qualquer aluno de escola pública pedir aulas, oficinas e palestras sobre temas extracurriculares.

Além de fotografia, há pedidos no colégio Maria Aguiar, em Curitiba, por Computação e Yoga.

 

Uma roda de capoeira especial após pedido no Quero na Escola!

Na sexta-feira passada, capoeiristas de Várzea Grande, no Mato Grosso, se encontraram na Escola Estadual Especial Luz do Saber para uma demonstração com participação dos alunos. A ação ocorreu menos de dez dias depois do pedido registrado por Daniel Silva, com o auxílio de sua mãe, Edmeia Silva, no Quero na Escola.

O adolescente tem síndrome de Down e se comunica com o auxílio de gestos. O berimbau e a as apresentações de capoeira sempre despertaram seu interesse e nunca fizeram parte do currículo escolar.

O diretor da escola, Rogério Lima, que assumiu o cargo este ano, conta que começou a receber a notícia no dia seguinte à publicação do site e gostou da ideia. “O diferente é que foi um pedido que partiu do aluno e da família, o que fortalece.” Segundo ele, junto com a página do pedido no Quero na Escola, amigos enviaram sugestões de capoeiristas e a roda foi marcada para ser a atração de uma festa que já ocorreria na instituição.

A equipe do Quero na Escola, que geralmente recebe o cadastro dos voluntários pelo site e faz o agendamento na escola, recebeu desta vez as fotos do evento já ocorrido. Com a feliz surpresa, contatamos a escola para dizer que tinham sido os primeiros a fazer as oficinas sozinhos. “Ninguém faz nada sozinho”, respondeu o diretor.

Daniel e sua mãe registraram também um pedido de musicoterapia que ainda aguarda voluntários. A direção da escola já conversa com algumas pessoas para tornar a capoeira projeto permanente.

Qualquer estudante de escola pública pode pedir o que quer aprender além do currículo obrigatório pelo Quero na Escola.

Um pedido especial no Mato Grosso

 

Daniel Silva se encaixa perfeitamente no perfil do Quero na Escola: o adolescente de 14 anos é aluno de escola pública e quer levar mais assuntos para sua escola. Um de seus pedidos, no entanto, gerou tantas perguntas e suposições que resolvemos apurar a história e contá-la aqui.

Ele pediu capoeira e musicoterapia e estuda na Escola Estadual Especial Luz do Saber, em Várzea Grande, Mato Grosso, bem ao lado da capital, Cuiabá. Quem atendeu o telefone de cadastro foi a mãe, Edmeia Silva. “Ele adora toda vez que vê capoeira e música e sempre quis, mas nunca conseguimos levar isso pra escola”, explicou, acrescentando que o filho tem síndrome de Down, se comunica com o auxílio de gestos e teve que ficar 4 anos sem ir à escola por conta de uma série de cirurgias no fim da infância.

Edmeia, que trabalha com assistência social, nem se lembra como chegou ao site Quero na Escola. “Vivo pesquisando como ajudar a escola e achei vocês. Como dizia que qualquer estudante de escola pública poderia pedir, eu tentei. Ele pode?”, nos perguntou. O Quero na Escola funciona quando voluntários atendem aos pedidos dos estudantes, então, devolvemos a pergunta a você, que está lendo: ele pode?

Quem quiser atender ao pedido de Daniel, pode se inscrever aqui.

Protagonistas e participativas

Inauguramos o Quero na Escola com dois propósitos: dar chance de protagonismo aos estudantes de escolas públicas e fazer um mapa de pedidos para quem quer participar da educação de forma direta. Em seis meses, quase 500 alunos foram atendidos presencialmente em suas escolas, com atividades que não são parte do currículo. Um terço deste total assistiu a uma palestra contra machismo solicitada por uma menina de 16 anos.

Não é uma coincidência. Protagonismo e participação são dois temas caros às mulheres. Tivéssemos mais representatividade política, por exemplo, projetos como o que dificulta o acesso a pílula do dia seguinte não teriam a menor chance. Além disso, o Quero na Escola é um projeto idealizado por mulheres, coordenado por mulheres e que sensibiliza principalmente mulheres.

Somos em cinco jornalistas. Eu e a Luciana Alvarez, com dois filhos pequenos cada uma, Tatiana Klix, Marina Morena Costa e Luísa Pécora (também autora do site Mulher no Cinema). Mercado de trabalho e maternidade, desigualdade e a legalização do aborto sempre entraram nas nossas conversas pela porta dos casos cotidianos.

Moro em São Paulo e, na primeira viagem para o Social Good Brasil Lab (laboratório de inovação em que o Quero na Escola foi gestado), em Florianópolis, um dos meus filhos de 3 anos teve a única crise de bronquite psicológica da vida. Eu surtei, quase desisti.

Foi o “papo feminista” com outras mães que me fez enxugar as lágrimas, explicar para mim e para ele que a mamãe estava fazendo o melhor para todo mundo e me ausentar mais quatro vezes nos meses seguintes. Só meio ano depois, já ganhamos dezenas de dias a mais  juntos por conta do projeto.

Neste mesmo meio tempo, nossas entrevistas apontaram para o “desinteresse” dos estudantes como problema dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio que poderíamos ajudar. A escuta aos adolescentes mostrou que eles têm sim interesses, só são diferentes do currículo que desenhamos para eles.

No final de agosto, abrimos o canal para os alunos dizerem o que querem aprender além da grade curricular e os assuntos surgiram: fotografia, quadrinhos, cerâmica, violão, artesanatos, contação de história, truques de mágica, grafite. Com os pedidos claros e genuínos, vieram os voluntários – majoritariamente voluntárias, aliás – e a participação efetiva da sociedade na educação pública.

Quando uma adolescente me procurou, tímida pelas redes sociais, para saber se cabia “palestra contra machismo e racismo” no site, ficamos eufóricas. Ela tem 16 anos, mora no bairro mais distante do centro de São Paulo e fez um pedido com uma necessidade confirmada diariamente. Ainda assim, nossas cabeças do século 20 ficaram surpresas. Uma surpresa feliz.

Quatro pessoas se voluntariaram para atendê-la, uma delas, a Marcella Chartier, mobilizou mais duas feministas, Martha Lopes e Vanessa Rodrigues. Tive a honra de acompanhá-las na viagem de quase cinco horas (ida e volta) até a escola estadual Joaquim Alvarez Cruz, em Barragem, compartilhando os próprios dilemas e enfrentamentos cotidianos ao machismo.

Saímos de lá comovidas com tudo. Elas estavam organizadas desde cedo, as mulheres terão mais chances daqui para frente. Ainda há tanto a fazer, mas foi criado um ambiente para as meninas lutarem por nós desde cedo e estamos à postos para apoiá-las.

Feliz Dia das Mulheres a vocês e obrigada por serem protagonistas e participativas.

Cinthia Rodrigues,  jornalista e cofundadora do Quero na Escola

atualização deste texto, originalmente publicado na coluna de Antônio Góis do jornal O Globo de 4/11/2015, como parte da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas

Alunos de Cabo Frio aprendem fotografia com voluntária

Uma aula sobre pixels, megapixels, sensibilidade dos sensores de máquinas fotográficas, composição das fotos e noções de enquadramento. Foi com esses temas teóricos e uma prática de retratos dos colegas que começou a primeira oficina de fotografia organizada pelo Quero na Escola no CIEP 458 Hermes Barcelos, em Cabo Frio, litoral norte do Rio de Janeiro. A pedido de um estudante, a fotógrafa e engenheira de produção Patrícia de Paula deu uma aula voluntariamente a 12 alunos e já combinou que voltará mais vezes.

O encontro entre a fotógrafa e a turma aconteceu motivado por um pedido feito pelo estudante Renan Vidal, aluno do 3o ano do ensino médio. A página com os pedidos registrados no Quero na Escola pelo Ciep foi ao ar no final do ano passado e, com a volta às aulas, a oficina foi agendada. Esta foi a primeira atividade a acontecer fora de São Paulo, onde o projeto nasceu.

“Eu já tinha sido voluntária em ONGs, mas trabalhando na parte de gestão. Foi a primeira vez que dei uma aula e foi uma experiência muito boa. É gratificante poder passar o conhecimento para as pessoas, compartilhar o que a gente sabe. Por mais que a gente ache que não saiba muito, sempre tem a ensinar. Foi bastante proveitoso”, resumiu Patrícia.

Ao final da oficina, ela sorteou entre os alunos um livro de fotojornalismo de seu próprio acervo. Os alunos se animaram a montar um clube de fotos e Patrícia irá orientá-los. Ela voltará mais vezes à escola para mais oficinas. A fotógrafa tem séries de trabalhos focados em retratos de pessoas e paisagens urbanas e naturais.

O Quero na Escola está aberto a qualquer estudante de escola pública que queira aprender algo além do currículo obrigatório. É possível ver os pedidos cadastrados por escola e se candidatar a ajudar.

Especialistas em Direitos Humanos atendem aluno e vão a escola estadual debater maioridade penal

Dois especialistas em Direitos Humanos foram voluntariamente à escola estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, na noite desta terça-feira para debater sobre redução da maioridade penal. Fabiana Leibl, advogada especializada no tema, e Sócrates Magno, educador e roteirista do filme “É disso que eu tô falando”, que trata do assunto, não se conheciam e nem a ninguém da instituição, mas se motivaram por um pedido publicado no Quero na Escola há 10 dias e se ofereceram para ajudar.

No auge do debate sobre a redução da maioridade penal no final de 2015, Aderson da Silva Vieira, 17 anos, se assustou com a postura dos colegas. “Eles reproduziam frases feitas que eram contra eles mesmos”, comentou ao explicar o pedido que fez pelo site, aberto a qualquer estudante de escola pública para que digam o que gostariam de aprender além do currículo obrigatório.

Duas turmas, incluindo a de Aderson, foram reunidas no laboratório de Ciências para a o evento. O zum zum zum da turma silenciou logo no início da exibição do curta-metragem. Aos oito minutos uma cena de um show dos Racionais MC’s cantando Negro Drama  provocou um coral baixinho.

Os especialistas apresentaram dados sobre quão poucos são os crimes hediondos cometidos por adolescentes (0,1%), falaram do quanto custa manter um preso e questionaram a quem interessam tais gastos, mas principalmente sobre o determinismo que leva muito mais pobres e negros a cometer delitos do que brancos e ricos.

“O jovem vai por falta de perspectiva, pegar na arma é o último ato de desespero dele”, comentou Sócrates, que também dá aulas de Ética e História da Arte e leciona para adolescentes da Fundação Casa. “Eu pergunto para os jovens brancos da elite o que eles querem ser e me respondem ‘médico’, ‘engenheiro’. E vão ser. Pergunto a mesma coisa para os internos da Fundação e eles querem ‘ser alguém’. Foram levados a vida toda a acreditar que não são alguém”

Os dois comentaram sobre o papel de programas de noticiário policial nos argumentos pela redução. “A gente vê as pessoas falarem ‘leva para casa’, mas não é de caridade que se trata, mas de justiça com quem já foi penalizado historicamente”, comentou Fabiana.

OFICINA DE DIADEMA 3As respostas dos estudantes vieram em exemplos bem próximos:

“Eu estou só no terceiro ano do Ensino Médio e já vi amigos morrerem. Desde a 5ª série que muita gente foi parando de estudar. A vida vai complicando muito cedo na periferia”

“Meu tio foi preso com 15 anos, eu ia visitá-lo”

“Meu irmão já foi pra Fundação Casa”

“As pessoas dizem que conscientização tem que vir de casa, mas como se os nossos pais tiveram ainda menos oportunidades do que a gente?”

“Aqueles apresentadores falam aquelas coisas e vão de carrões para suas mansões e o trabalhador que já ralou o dia inteiro e ficou no transporte horas acaba assistindo aquilo de um cara que não sabe nada da realidade da periferia”

OFICINA DE DIADEMA 2Tímido, Aderson apenas observou o debate. Os colegas e a coordenadora pedagógica, Verônica Silva do Nascimento, que foi contatada quando já havia voluntários à disposição, se surpreenderam com o protagonismo. “Foi uma excelente surpresa, é um menino tímido e deu uma contribuição excelente para a escola”, comentou.

Professor de Filosofia, Marcelo Cruz, que acompanhou os debates se disse “inspirado”

OFICINA DE DIADEMA 1O professor de Filosofia, Marcelo Cruz, que também acompanhou o debate, se disse “inspirado”. “Várias coisas que eles citaram podem render nas aulas. Foi muito bom ver os alunos tão compenetrados e participativos”.

A escola pretende manter o tema em debate e continua aberta a novas intervenções de especialistas voluntários inclusive para as demais salas, que não puderam ser atendidas de uma só vez. O Quero na Escola está aberto a qualquer estudante de escola pública que quer aprender algo além do currículo obrigatório.