Protagonistas e participativas

Inauguramos o Quero na Escola com dois propósitos: dar chance de protagonismo aos estudantes de escolas públicas e fazer um mapa de pedidos para quem quer participar da educação de forma direta. Em seis meses, quase 500 alunos foram atendidos presencialmente em suas escolas, com atividades que não são parte do currículo. Um terço deste total assistiu a uma palestra contra machismo solicitada por uma menina de 16 anos.

Não é uma coincidência. Protagonismo e participação são dois temas caros às mulheres. Tivéssemos mais representatividade política, por exemplo, projetos como o que dificulta o acesso a pílula do dia seguinte não teriam a menor chance. Além disso, o Quero na Escola é um projeto idealizado por mulheres, coordenado por mulheres e que sensibiliza principalmente mulheres.

Somos em cinco jornalistas. Eu e a Luciana Alvarez, com dois filhos pequenos cada uma, Tatiana Klix, Marina Morena Costa e Luísa Pécora (também autora do site Mulher no Cinema). Mercado de trabalho e maternidade, desigualdade e a legalização do aborto sempre entraram nas nossas conversas pela porta dos casos cotidianos.

Moro em São Paulo e, na primeira viagem para o Social Good Brasil Lab (laboratório de inovação em que o Quero na Escola foi gestado), em Florianópolis, um dos meus filhos de 3 anos teve a única crise de bronquite psicológica da vida. Eu surtei, quase desisti.

Foi o “papo feminista” com outras mães que me fez enxugar as lágrimas, explicar para mim e para ele que a mamãe estava fazendo o melhor para todo mundo e me ausentar mais quatro vezes nos meses seguintes. Só meio ano depois, já ganhamos dezenas de dias a mais  juntos por conta do projeto.

Neste mesmo meio tempo, nossas entrevistas apontaram para o “desinteresse” dos estudantes como problema dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio que poderíamos ajudar. A escuta aos adolescentes mostrou que eles têm sim interesses, só são diferentes do currículo que desenhamos para eles.

No final de agosto, abrimos o canal para os alunos dizerem o que querem aprender além da grade curricular e os assuntos surgiram: fotografia, quadrinhos, cerâmica, violão, artesanatos, contação de história, truques de mágica, grafite. Com os pedidos claros e genuínos, vieram os voluntários – majoritariamente voluntárias, aliás – e a participação efetiva da sociedade na educação pública.

Quando uma adolescente me procurou, tímida pelas redes sociais, para saber se cabia “palestra contra machismo e racismo” no site, ficamos eufóricas. Ela tem 16 anos, mora no bairro mais distante do centro de São Paulo e fez um pedido com uma necessidade confirmada diariamente. Ainda assim, nossas cabeças do século 20 ficaram surpresas. Uma surpresa feliz.

Quatro pessoas se voluntariaram para atendê-la, uma delas, a Marcella Chartier, mobilizou mais duas feministas, Martha Lopes e Vanessa Rodrigues. Tive a honra de acompanhá-las na viagem de quase cinco horas (ida e volta) até a escola estadual Joaquim Alvarez Cruz, em Barragem, compartilhando os próprios dilemas e enfrentamentos cotidianos ao machismo.

Saímos de lá comovidas com tudo. Elas estavam organizadas desde cedo, as mulheres terão mais chances daqui para frente. Ainda há tanto a fazer, mas foi criado um ambiente para as meninas lutarem por nós desde cedo e estamos à postos para apoiá-las.

Feliz Dia das Mulheres a vocês e obrigada por serem protagonistas e participativas.

Cinthia Rodrigues,  jornalista e cofundadora do Quero na Escola

atualização deste texto, originalmente publicado na coluna de Antônio Góis do jornal O Globo de 4/11/2015, como parte da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas

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