Especialistas em Direitos Humanos atendem aluno e vão a escola estadual debater maioridade penal

Dois especialistas em Direitos Humanos foram voluntariamente à escola estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, na noite desta terça-feira para debater sobre redução da maioridade penal. Fabiana Leibl, advogada especializada no tema, e Sócrates Magno, educador e roteirista do filme “É disso que eu tô falando”, que trata do assunto, não se conheciam e nem a ninguém da instituição, mas se motivaram por um pedido publicado no Quero na Escola há 10 dias e se ofereceram para ajudar.

No auge do debate sobre a redução da maioridade penal no final de 2015, Aderson da Silva Vieira, 17 anos, se assustou com a postura dos colegas. “Eles reproduziam frases feitas que eram contra eles mesmos”, comentou ao explicar o pedido que fez pelo site, aberto a qualquer estudante de escola pública para que digam o que gostariam de aprender além do currículo obrigatório.

Duas turmas, incluindo a de Aderson, foram reunidas no laboratório de Ciências para a o evento. O zum zum zum da turma silenciou logo no início da exibição do curta-metragem. Aos oito minutos uma cena de um show dos Racionais MC’s cantando Negro Drama  provocou um coral baixinho.

Os especialistas apresentaram dados sobre quão poucos são os crimes hediondos cometidos por adolescentes (0,1%), falaram do quanto custa manter um preso e questionaram a quem interessam tais gastos, mas principalmente sobre o determinismo que leva muito mais pobres e negros a cometer delitos do que brancos e ricos.

“O jovem vai por falta de perspectiva, pegar na arma é o último ato de desespero dele”, comentou Sócrates, que também dá aulas de Ética e História da Arte e leciona para adolescentes da Fundação Casa. “Eu pergunto para os jovens brancos da elite o que eles querem ser e me respondem ‘médico’, ‘engenheiro’. E vão ser. Pergunto a mesma coisa para os internos da Fundação e eles querem ‘ser alguém’. Foram levados a vida toda a acreditar que não são alguém”

Os dois comentaram sobre o papel de programas de noticiário policial nos argumentos pela redução. “A gente vê as pessoas falarem ‘leva para casa’, mas não é de caridade que se trata, mas de justiça com quem já foi penalizado historicamente”, comentou Fabiana.

OFICINA DE DIADEMA 3As respostas dos estudantes vieram em exemplos bem próximos:

“Eu estou só no terceiro ano do Ensino Médio e já vi amigos morrerem. Desde a 5ª série que muita gente foi parando de estudar. A vida vai complicando muito cedo na periferia”

“Meu tio foi preso com 15 anos, eu ia visitá-lo”

“Meu irmão já foi pra Fundação Casa”

“As pessoas dizem que conscientização tem que vir de casa, mas como se os nossos pais tiveram ainda menos oportunidades do que a gente?”

“Aqueles apresentadores falam aquelas coisas e vão de carrões para suas mansões e o trabalhador que já ralou o dia inteiro e ficou no transporte horas acaba assistindo aquilo de um cara que não sabe nada da realidade da periferia”

OFICINA DE DIADEMA 2Tímido, Aderson apenas observou o debate. Os colegas e a coordenadora pedagógica, Verônica Silva do Nascimento, que foi contatada quando já havia voluntários à disposição, se surpreenderam com o protagonismo. “Foi uma excelente surpresa, é um menino tímido e deu uma contribuição excelente para a escola”, comentou.

Professor de Filosofia, Marcelo Cruz, que acompanhou os debates se disse “inspirado”

OFICINA DE DIADEMA 1O professor de Filosofia, Marcelo Cruz, que também acompanhou o debate, se disse “inspirado”. “Várias coisas que eles citaram podem render nas aulas. Foi muito bom ver os alunos tão compenetrados e participativos”.

A escola pretende manter o tema em debate e continua aberta a novas intervenções de especialistas voluntários inclusive para as demais salas, que não puderam ser atendidas de uma só vez. O Quero na Escola está aberto a qualquer estudante de escola pública que quer aprender algo além do currículo obrigatório.

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