Quero na Escola encerra o ano com estudantes se expressando pelas paredes

Cores, formas abstratas, nomes, mulheres, cabelos black power, corações e animais foram as principais opções dos estudantes quando puderam se expressar nas paredes do pátio da Escola Estadual Antônio Alcântara Machado, no Ipiranga, zona sul de São Paulo.

A atividade de grafite foi um pedido de estudantes inspirados pela própria coordenadora pedagógica, Laura Amaral, que havia recebido dois voluntários no Especial Professor, em outubro. Desta vez, seis artistas se inscreveram: Vitones, Folego, Além, Gatuno, Cayque e Calma.

Com apoio da loja Tintas Lusacor, foi possível envolver, além deles, mais de 200 dos alunos da escola. A atividade ocorreu no dia 25 de novembro, das 9h às 16h.

Assim como crianças que começam a escrever pelos nomes, muitos queriam o spray para “assinar” as paredes. A gestão da escola vetou e a saída escolhida foi buscar giz nas salas de aula e pintar apenas depois do rascunho ilustrado. Os estudantes pediam ao grafiteiros dicas de como segurar o spray, distância para a parede e, quando chegou a vez da tinta em pincel, como produzir o pigmento.

A manhã era de apresentações de trabalhos e talentos no pátio e houve trilha sonora o tempo todo na voz de alunos e professores. “Foi o dia mais da hora que eu já tive na escola”, comentou Emerson Júnior, que levou um rascunho no papel e foi um dos primeiros a começar e último a acabar. “Sempre pintei as paredes em casa”, comentou.

Uma das voluntárias, Folego, lembrou que, como aluna, viu um grafite na própria escola e copiou o desenho muitas vezes. “Toda vez que olhava ficava pensando do alto dos meus 13 anos: um dia quero pintar as paredes de uma escola também”.

O dia contou ainda com dois fotógrafos voluntários: Augusto Gomes e Bruno Braguetto, que fizeram os belos registros desta página, e um jogador de basquete, estudante da Universidade de São Paulo, Leonardo Uliam, que fez uma participação especial nas quadras.

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Estudantes e professores falam de orientação sexual com voluntário em escola do Brás

“Já tentaram me ensinar que a criança nasce homossexual, mas eu não consigo acreditar nisso”, compartilhou uma aluna da Escola Estadual Padre Anchieta, no Brás (São Paulo – SP), logo no início da conversa sobre homofobia, organizada pelo Quero na Escola na última sexta-feira (2). O voluntário Fábio Meirelles – que foi por quatro anos Coordenador de Direitos Humanos do Ministério da Educação, responsável por conduzir sua política de gênero e diversidade sexual –, foi à escola para falar do assunto solicitado por outra aluna, Ester Passos.

Fábio começou a conversa perguntando se os alunos acreditavam haver uma opção sexual, ou seja, que as pessoas escolhem por qual sexo vão se sentir atraídas sexualmente. Questionou também qual seria a diferença entre orientação sexual e gênero, e, logo de cara, as opiniões contrastantes começaram a surgir. Ester mostrou estar preparada para o debate e em consonância com o voluntário, elencando todas as orientações sexuais e expressões de gênero que conhecia: “Hetero, Homo, Bi, Assexuado, Trans, Travesti…”.  Já outro aluno mostrou acreditar no contrário: “Tem sim muita gente que virou gay pela moda”.

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Alunos que participaram mais ativamente do debate até o final, contrastando opiniões de forma respeitosa e sem agressões.

Com o tempo, o debate foi ficando cada vez mais quente e Fábio ficou com o papel de mediador das trocas entre os alunos e as alunas que queriam colocar ansiosamente suas opiniões na roda. “Homossexual não quer respeito, quer privilégios. Já vi debates em que eles pedem leis exclusivas! As leis deveriam falar de preconceito no geral”, retomou a aluna que abriu a discussão, com apoio de um colega: “Sim, tem que se preocupar com a população como um todo”.

Frente a esses posicionamentos, Fábio explicou que populações como a LGBT e a negra sofrem, objetivamente, mais preconceito que a sociedade como um todo. “É preciso olhar com uma lupa para essas pessoas que passam por vulnerabilidade”, explicou, reforçando a necessidade de políticas específicas de proteção a minorias. Com a dinâmica de cada um poder falar suas opiniões abertamente, não demorou até que o tema fosse expandido para outros assuntos como o feminismo e o aborto.

Alguns professores também participaram com suas opiniões: “Não existe mãe-solteira, existem mães. Esse estigma de solteira é colocado pela nossa cultura”, pontuou Jean, que dá aulas de Português, pegando carona na fala de uma aluna que relatou ter sido criada apenas pela mãe. Mas o docente que mais impressionou com um relato marcante foi o Fernando Queiroz, professor de Língua Portuguesa:

“Sou professor e ex-aluno dessa escola, onde sofri muito bullying. Se eu pudesse escolher, eu escolheria ser homem, para não sofrer com o preconceito”, ele compartilhou. E continuou, fazendo referência a Luma Andrade, a primeira travesti a concluir um doutorado no Brasil: “A genitália não pode predominar sobre o pensamento. E nem venham falar de igualdade não, porque a gente não tem igualdade”.

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Professor Fernando falando de sua experiência pessoal como homossexual na escola.

Outra afirmação comum entre os alunos e professores foi a de que ninguém seria obrigado a aceitar a orientação sexual alheia, mas sim a respeitar. Ao que Fábio ressaltou que é importante tomar cuidado porque “você pode não aceitar, mas considerando as questões de estereótipos, pode acabar colaborando com a opressão”, explicou, citando a tradicional divisão de cores e brinquedos entre meninos e meninas.

Quem se posicionou, também, foi a Jennifer Santos Sousa, professora de Sociologia da escola, que deu uma aula de tolerância: “Temos que pensar que vivemos dentro de um sistema cultural, transmitido através da educação. Todos vocês são iguais? Aqui na escola mais de 50% são imigrantes e sempre pergunto para eles se a cultura no Brasil é igual à Bolívia, ao Perú, sempre dizem que não”, explicou. “Temos que reconhecer a diferença e possibilitar espaços como esse, em que o diálogo seja possível”, concluiu, reforçando a importância dos debates que, segundo ela e os alunos, são pouco frequentes no ambiente escolar.

A troca de ideias foi proveitosa e, apesar do clima quente, todos se respeitaram e ouviram as opiniões dos outros sem partir para a agressão verbal. Uma cena que ilustra bem essa característica saudável do debate aconteceu na despedida, quando o professor Fernando disse a um aluno: “Olha, eu gosto de você, viu? Não concordo com as suas opiniões, mas gosto muito de você”.

“Foi super legal participar do debate, e principalmente saber que uma estudante de escola pública fez esse pedido. Acho que os alunos, professores e a coordenação da escola gostou muito, até pediu para a gente repetir”, conta Fábio sobre sua experiência como voluntário, afirmando que espera se candidatar mais vezes para conversas assim.

Esse foi o primeiro pedido atendido na Escola Estadual Padre Anchieta, veja todos os pedidos que ainda aguardam voluntários.

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