Como aproveitar a instância de participação democrática dos estudantes

Por Marcela Riccomini

Os grêmios estudantis ajudam estudantes a exercer a democracia, debater deveres e lutar pelos direitos. Estas agremiações sempre foram parceiras do Quero na Escola, na interlocução com a gestão escolar para agendamento das atividades do projeto ou até para inscrever pedidos por colaboração de maneira representativa. Este ano a parceria ganhou uma mão dupla: recebemos pedidos e realizamos atividades sobre como potencializar os grêmios.

Foi o caso do pedido da aluna Giovanna Almeida, da Escola Estadual Doutor Joaquim Silvado, em São Paulo. Ela estava concorrendo em uma das chapas para o grêmio e viu no Quero na Escola uma oportunidade de ampliar suas propostas. O estudante de Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo (USP) Guilherme Lamana se voluntariou para atender, com a experiência de quem foi presidente do grêmio estudantil da Etec Albert Einstein, também em São Paulo, há 4 anos.

Entre a campanha e a ida de Guilherme, as eleições do grêmio ocorreram e a chapa da Giovanna acabou não sendo eleita. Mas isso não impediu que ela aproveitasse a reunião que foi agendada com o grupo eleito, já que o grêmio está ali para ser feito por todos os alunos, eleitos e não eleitos.

Durante a conversa, Guilherme repassou a legislação que envolve os grêmios, os meios de formalizá-lo e o que espera-se dele. Para exemplificar a força do movimento estudantil, trouxe exemplos da história desde MMDC (Sigla de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, estudantes mortos durante a revolução constitucionalista de 1932) até as ocupações de escolas públicas em 2015 e 2016, quando ele já estava no movimento estudantil e pôde viver toda movimentação de protestos.

No segundo momento, o universitário dividiu as possíveis propostas e como implementá-las na escola. Falou sobre quatro possíveis áreas de atuação: comunicação, esporte, didáticas e entretenimento. A escola estadual Doutor Joaquim Silvado tem duas professoras responsáveis pelo grêmio, Angélica Santos e Gabrielle Napoleão. Segundo elas, todos gostaram e houve bastante troca de informações.

No começo de abril, no Rio de Janeiro, também havia ocorrido uma conversa sobre a importância do grêmio e da educação pública de qualidade no Centro Integrado de Educação Pública (Ciep) Brizolão 309 Zuzu Angel, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Além disso estamos com vários pedidos de novos voluntários para este assunto em diferentes cidades de todo o Brasil (veja aqui todos).

Se você é um destes estudantes ou também precisa de ajuda. Aqui vão algumas dicas: 

  • A eleição é só o início. Quem ganhou agora vai trabalhar para por em prática as propostas e esta é a parte mais difícil. Quem perdeu também pode e deve ajudar em tudo e, se for o caso, fazer uma oposição e participar ativamente. Viver uma democracia em que oponentes possam trabalhar pelo que buscam em comum é talvez o maior aprendizado a se buscar.
  • Tente fazer um estatuto por assembléia geral, com voz ativa dos estudantes.
  • Crie propostas viáveis, divulgue-as e debata com transparência.
  • Tenha uma relação próxima com a direção da escola, mostre cooperação e comprometimento, assim suas propostas são de fato executadas.
  • Procure conhecer mais e mais dos seus direitos assim poderá lutar pelos mesmos.
  • Saiba seus deveres e cumpra com os combinados.
  • Ninguém sabe tudo nem consegue fazer tudo sozinho, busque colaboração dentro e fora da escola, conte com o Quero na Escola para levar colaboração em assuntos específicos (pode ser para uma oficina de Quadrinhos, uma montagem de exposição ou uma palestra sobre o que vocês acharem importante, inscreva-se aqui)
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A voluntária que foi a cinco escolas só este ano

Por Natália Sierpinski

Quem acompanhou o Quero na Escola em 2018 provavelmente já conhece a Deise Ruiz. Profissionalmente ela é psicóloga, especializada em Neuropsicologia e mestranda em Psiquiatria e Psicologia Clínica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), como nossa voluntária conversa com estudantes sobre Psicologia, Bullying, Cyberbullying e outros temas ligados à sua área. 

Só este ano, ela esteve em cinco escolas em que estudantes pediram algo em que ela pudesse ajudar. Para o ano que vem, já está inscrita em outras. Não só isso: ela acompanha as publicações nas redes sociais, às vezes indica alguém que imagina que possa querer se envolver, outras vezes compartilha em sua página. Pelo Quero na Escola, já esteve em Lajeado, na zona leste da capital paulista, Lapa, na zona oeste, Ipiranga na Zona Sul e em duas escolas de Guarulhos. E de lá carrega os jovens virtualmente.

Além de deixar materiais que produziu na escola, para que as discussões e debates possam continuar, também se conecta por telefone ou redes sociais com os que mais se aproximam. “Tem estudante que me manda mensagem meses depois”, nos contou uma vez. E não só estudantes.

Em uma das atividades, ela atendia a um pedido do Quero na Escola Especial Professor, na Escola Estadual Alcântara Machado.  A coordenadora Francisca de Assis Carvalho, a elogiou com assertiva na linguagem usada com os alunos. “Ele falaram que adoraram e saíram com vários temas que gostariam que fossem abordados na escola relacionados a atividade, como Depressão e Orientação Vocacional”.

“Participei de palestra de uma voluntária cadastrada e achei ótima essa iniciativa.  Fazer-se conhecer, mostrar horizontes, abrir janelas para aguçar a curiosidade dos alunos,” contou. Nós que agradecemos pela iniciativa, horizontes ampliados e janelas abertas.

Quer ser voluntário? Veja se há algum pedido na nossa página sobre o assunto que você quer falar! 

Atividades em resposta a pedidos de professores batem recorde

O número de professores dispostos a criar espaços de colaboração em suas escolas e de pessoas interessadas em participar da educação pública cresceu muito no Quero na Escola Especial Professor, nosso projeto em parceria com a Fundação SM. A pedido dos educadores, foram realizadas 48 atividades em 38 escolas, de 18 cidades, de seis Estados do Brasil. Houve formação tanto para os mestres quanto para seus alunos, palestras, apresentações culturais, aprendizados e intervenções artísticas.

Depoimento de professora de São Bernardo do Campo

Participaram 382 professores e 3.342 estudantes em atividades promovidas por 61 voluntários. A cidade de São Paulo foi a mais movimentada com ações em 14 escolas. Ainda em São Paulo houve atividade em Mogi das Cruzes, Guarulhos, Osasco, Jundiaí, Diadema, Hortolândia, São Bernardo do Campo, Cotia, Santo André e Serra Negra.

Minas Gerais recebeu atividades em Esmeraldas e Bom Sucesso (que recebeu voluntárias vindas do Paraná, conforme a gente contou aqui). No Rio de Janeiro, teve uma atividade motivacional em Magé e duas diferentes para o tema “uso da ciência para redução das desigualidades”, em Nova Iguaçu.

Retorno da voluntária em Magé

No Nordeste a participação foi em Salvador, Bahia, com uma aula sobre Cyberbullying, para estudantes. No Norte, em Belém do Pará, uma voluntária atendeu a professora que queria uma oficina de produção audiovisual para seus alunos. No Centro-Oeste, em Goiânia, Goiás, uma psicóloga foi ensinar técnicas de relaxamento ao grupo de professores.

“O mais forte do Quero na Escola Especial Professor é o respeito ao trabalho da escola e os laços criados com diferentes setores da sociedade civil. Fortalecer e respeitar são palavras mágicas dentro da escola e o Quero na Escola pratica o tempo inteiro”, comenta a Diretora da Fundação SM, Pilar Lacerda.

Esta foi a terceira edição do programa em que os educadores dizem que pessoa gostariam de receber na escola para colaborar com um projeto ou ensinar algo aos professores ou aos alunos. No primeiro ano, em 2016, foram realizadas 13 atividades e, no ano passado, 27.

Mais detalhes e fotos das primeiras atividades podem ser conferidos aqui e aqui. Outro texto fala de uma das ações sobre Comunicação Não Violenta e um sobre valorização da cultura afrodescendente em duas atividades diferentes em Guarulhos.

 

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Vídeo

Ator é voluntário em aulas de teatro semanais em escola de SP

Desde março, duas turmas de 9º ano da Escola Estadual José Monteiro Boanova têm aulas de teatro opcional todas as quartas-feiras. As oficinas são ministradas pelo ator, diretor e professor de teatro, Fernando Pernambuco, que se voluntariou via Quero na Escola.

Em uma das aulas deste mês, Fernando fez dois exercícios de interpretação com os jovens. Em um deles, deveriam interpretar uma ação feita por um dos colegas e improvisar um personagem para compor a cena. Em outro, escreveu na lousa uma frase grafitada no muro da própria escola, para que debatessem e criassem uma cena que a interpretasse. Assista:

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Fernando em conversa com a segunda turma para explicar um dos exercícios

Jovens partem de trabalhos escolares para criar projetos úteis na prática

Por Luciana Alvarez

Em vez de se focar em produções puramente acadêmicas, alguns estudantes de ensino médio optam por aplicar os conhecimentos em situações reais e ir além do que é exigido pelos professores. O resultado traz benefícios para a comunidade e promove aprendizados mais significativos para o próprio jovem. O Quero na Escola ouviu a história de três jovens que foram protagonistas em suas trajetórias escolares. Inspire-se e, se precisar de uma ajuda, chama aqui.

Educação ambiental na prática

Ex-aluna da Escola Estadual Prof. Adail Malmegrim Gonçalves, Larissa Hillary da Silva Correia, hoje com 17 anos, sempre gostou de se envolver com questões ambientais. Ela participava de um projeto de educação ambiental da Ufscar (Universidade Federal São Carlos) chamado Trilhas. Quando na escola precisou fazer um trabalho sobre o Cerrado, acionou seus contatos da universidade para ir além do que o professor havia pedido. “Isso foi no 1º ano. Peguei emprestado com o pessoal da Ufscar insetos, animais empalhados, folhas e sementes para expor na escola”, diz. O material que ela conseguiu chegou até mesmo às famílias, numa exposição dos trabalhos de ciências. “Teve um dia que a escola foi aberta e foi toda a comunidade poder conhecer. A escola encheu”, lembra.

Dois anos depois, no 3º ano, o professor de Biologia propôs um trabalho prático sobre meio ambiente e ela, mais uma vez, aproveitou a oportunidade para fazer algo concreto – e foi assim que sua escola ganhou uma horta. “A escola que propôs o projeto, mas nós (os alunos) fomos tomando conta. Dividimos a classe em três grupos e montamos uma horta, uma composteira e uma cisterna”, conta Larissa.

O projeto acabou por envolver a escola toda, que se mobilizou para conseguir sementes, por exemplo. “Foi um trabalho que valeu nota, o professor avaliou cada grupo e o trabalho de cada um. Mas isso nem importa tanto, porque saímos da escola, visitamos ONGs para aprender. Todo mundo adorou”, garante.

Estudantes foram visitar ONG e acabaram criando aplicativo pra adoção

Informática aplicada a um problema real

Vinícius Molina, 18 anos, concluiu o ensino médio no ano passado pela Etec Polivalente de Americana e hoje cursa a faculdade de Jogos Digitais, mas ele continua a se reunir com o antigo grupo da escola técnica de ensino médio para aperfeiçoar um trabalho que já foi entregue e teve nota. O TCC do grupo foi um software para melhorar os processos do Centro de Controle de Zoonoses de Americana, interior de São Paulo, e ajudar na adoção. “Tudo começou com uma família de gatos abandonados. Fomos investigar, visitamos a instituição e vimos que eles estavam lotados de animais, que ninguém adotava”, conta Vinícius.

Embora o produto tenha sido entregue, o grupo quer melhorar o sistema. “Perfeito nunca fica, mas queremos deixar o melhor possível, para que possa funcionar por muitos anos”, diz o estudante. Além de ajudar a instituição, a iniciativa mudou a forma como os jovens encaram o conhecimento técnico e científico. “Aprendemos sobre como funciona o mundo, um caminho para propor soluções, algo que vai além do que se aprendem nas matérias da escola. Aprendemos como podemos ser cidadãos”, afirma.

Eventos abrem porta para o futuro

Assim como Vinícius, Stephane Santos, 18 anos, também fazia ensino técnico junto com o médio. Como seu curso na  Etec Profª Drª Doroti Quiomi Kanashiro Toyohara era na área de eventos, decidiu participar ativamente da organização de todos os eventos da escola, das tradicionais festas juninas ao festival de primavera, passando por jornadas de coleta de lixo eletrônico. “Eram as oportunidades de colocar em prática tudo aquilo que eu já tinha visto na teoria. Quando você realiza, o aprendizado fica bem mais interessante, porque engloba tudo”, afirma. Muitos professores usavam a participação nesses eventos para dar nota, embora a participação não fosse uma obrigatoriedade. “Alguns colegas preferiam fazer trabalhos teóricos, mas eu sempre preferi a prática”, relata.

Stefane terminou o ensino médio em 2017 e agora se prepara para fazer faculdade nos Estados Unidos, com uma bolsa. Em setembro ela começa um curso de negócios na Universidade Minerva, na Califórnia. “Tenho certeza que todas essas atividades durante o ensino médio contaram bastante para eu ser aprovada na seleção”, diz. Segundo ela, durante as entrevistas de seleção, ela foi bastante questionada sobre iniciativas que teve para melhorar o mundo.

O Quero na Escola é uma plataforma que ouve os pedidos de aprendizagem dos estudantes que vão além do currículo obrigatório. Se você é estudante e gostaria de pedir ajuda para fazer algo em sua escola, conte com a gente! Inscreva-se

Três séries de Educação na Netflix e um drama oculto para o Brasil

Observação: contém descrição de cenas das séries mencionadas

Três sucessos recentes na Netflix se passam em escolas públicas de Ensino Médio, duas nos Estados Unidos e uma na Catalunha. As séries “13 Reasons Why”, “Atypical” e “Merlí” tratam respectivamente de suicídio, autismo e filosofia, mas para quem frequenta salas de aula no Brasil há um drama oculto adicional: o contraste entre as escolas “problemas” das telas e a nossa realidade.

A mais polêmica é a “13 Reasons Why”, sobre uma jovem que se suicida após gravar 13 fitas, uma com cada motivo que a levou a morte. Doze dos responsabilizados por ela são colegas que cometem bullying, omissão e estupro e o último é o psicólogo da escola, a quem ela recorre mais de uma vez para expor seus problemas. O psicólogo, que trabalha com o diretor, tem sua própria sala e uma rotina dedicada a conversar com estudantes, educadores e pais para ajudar a resolver conflitos, faz um trabalho deficiente e não dá atenção à protagonista.

1) 13 Reasons Why

Quem acompanha os dramas das escolas brasileiras, que incluem suicídio, bullying, estupro e outros dramas, sabe que no Brasil sequer existe este funcionário da escola. Em 2017, “depressão” foi um tema bastante solicitado por estudantes no Quero na Escola, o que já é um indicador preocupante. Em duas escolas, uma voluntária palestrou sobre o assunto e acabou permanecendo por horas cercada por jovens que queriam falar de seus dramas e pediam ajuda. A voluntária encaminhou as alunas – todas mulheres – a serviços municipais de atendimento psicológico. Um profissional como o do seriado, não havia nem para tentativa.

Em “Atypical”, cujo protagonista é um jovem Asperger (tipo de autismo que inclui uma alta habilidade) muito do que chama atenção aparece também em “13 Reasons Why” e em diversos filmes de colégios americanos: corredores com armários, salas ambientes,  laboratórios sendo usados e reuniões de pais em anfiteatros que não servem apenas para meros comunicados da escola, mas sim para discussão e busca de soluções. O duro é ver como uma escola assim ainda é considerada ruim perto do que seria uma realmente boa.

2) Atypical

Na cena final da primeira temporada de “Atypical”, o jovem refaz todos os passos da namorada em busca de uma correntinha perdida. Passa pela sala de Química, pela sala de Francês, pela sala de História, abre o armário em que ela guarda seus livros e objetos pessoais – enquanto no Brasil até mesmo salas de informática e de leitura ficam trancadas – e finalmente encontra a bijouteria no fundo da piscina que ela usou na última aula do dia, que diferente do Brasil não é a 5ª ou 6ª aula, mas a 8ª.

O jovem chega então, molhado, ao baile de formatura com a correntinha. Estão todos de fone de ouvido por uma decisão do conselho de escola por um “baile mudo” para que ele não se estresse com o som alto. Ali encontra a irmã, que ganhou uma bolsa de estudos para uma escola muito melhor por se destacar como esportista. Ela o tira para dançar e diz que não precisa aceitar a bolsa. O jovem, cuja Síndrome garante sinceridade acima do comum, responde: “Seria muita burrice não ir”, deixando claro que toda a cena anterior não mostrou mais que uma escola mediana.

3) Merlí

Na série catalã, há mais semelhanças com as escolas brasileiras. O protagonista, Merlí, é um professor de Filosofia que se aproxima dos jovens em oposição a um professor coordenador conservador, que insiste em se impor pelo medo. A lousa verde e o giz são os principais instrumentos e os alunos frequentemente sentam-se nos degraus das escadarias. A escola pública é por vezes criticada e há estudantes pobres, à beira da evasão.

Ainda assim, algo sai do que seria considerado comum no Brasil. As paredes das salas têm cores e armários, janelas com cortinas e ar-condicionado. Os jovens fazem aula de Educação Física e tomam banho no vestiário e o laboratório de Ciências aparece bem equipado. Ora a turma faz uma excursão, ora uma mãe, presidente da Associação de Pais e Mestres, atua dentro da escola em uma sala destinada aos pais.

O mais diferente, no entanto, é o tratamento dado a um dos estudantes que está em casa com agorofobia, medo de espaços públicos. A instituição destina um professor para visitá-lo regularmente, dar aulas e ajudar em sua recuperação. Na ficção, os esforços dão certo: o jovem vence o medo e volta para a escola, junto com os colegas que desistem do abandono. Impossível não pensar em mais de 1,5 milhão de jovens brasileiros que deveriam estar nas nossas escolas e como os enredos dos seriados ajudam a explicar o que falta pra isso.

Aos 19 anos, um terço dos brasileiros parou de estudar sem concluir o Ensino Médio

De cada 3 jovens brasileiros, um abandona a escola sem terminar o Ensino Médio. Dos 2.908.006 jovens do Brasil que completaram 19 anos em 2015, um terço, ou 950.746 pessoas, já haviam abandonado a escola apesar de não terem concluído a educação básica. Destes, 497.757 estavam trabalhando e os demais 452.989 não estavam nem na escola e nem em algum trabalho.

Os dados foram divulgados pelo Todos Pela Educação na semana passada a partir de bases do IBGE e da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicilio (Pnad). O elevado número de adolescentes que desiste de estudar é um dos principais motivadores do Quero na Escola. Ao perguntar diretamente aos jovens o que eles gostariam de aprender além do currículo obrigatório, buscamos tornar os estudos menos desinteressantes para a faixa etária.

Por que os estudantes deixam a escola? Nenhuma pesquisa aponta exatamente. Sabe-se que o índice das jovens que abandonam e tem filhos é alto (31%), o que é um indicativo de que a maternidade e os afazeres domésticos são responsáveis por abreviar o tempo de estudo das meninas. Entre os meninos, os motivos são ainda menos mapeados.

Um dado que aumentou consideravelmente em 2015 em relação ao ano anterior foi o do total que abandonou a escola e não trabalha. Em 2014, 60% dos jovens de 19 anos que deixaram de estudar estavam trabalhando. Em 2015, apenas 52% dos que estavam fora da escola estavam no mercado de trabalho. O Quero na Escola acredita que é urgente ouvir os jovens sobre sua própria educação, inclusive sobre os motivos pelos quais deixam de investir seu tempo e esforço na escola.

Inscreva-se no Quero na Escola ou acompanhe as notícias do projeto.

 

Quero na Escola encerra o ano com estudantes se expressando pelas paredes

Cores, formas abstratas, nomes, mulheres, cabelos black power, corações e animais foram as principais opções dos estudantes quando puderam se expressar nas paredes do pátio da Escola Estadual Antônio Alcântara Machado, no Ipiranga, zona sul de São Paulo.

A atividade de grafite foi um pedido de estudantes inspirados pela própria coordenadora pedagógica, Laura Amaral, que havia recebido dois voluntários no Especial Professor, em outubro. Desta vez, seis artistas se inscreveram: Vitones, Folego, Além, Gatuno, Cayque e Calma.

Com apoio da loja Tintas Lusacor, foi possível envolver, além deles, mais de 200 dos alunos da escola. A atividade ocorreu no dia 25 de novembro, das 9h às 16h.

Assim como crianças que começam a escrever pelos nomes, muitos queriam o spray para “assinar” as paredes. A gestão da escola vetou e a saída escolhida foi buscar giz nas salas de aula e pintar apenas depois do rascunho ilustrado. Os estudantes pediam ao grafiteiros dicas de como segurar o spray, distância para a parede e, quando chegou a vez da tinta em pincel, como produzir o pigmento.

A manhã era de apresentações de trabalhos e talentos no pátio e houve trilha sonora o tempo todo na voz de alunos e professores. “Foi o dia mais da hora que eu já tive na escola”, comentou Emerson Júnior, que levou um rascunho no papel e foi um dos primeiros a começar e último a acabar. “Sempre pintei as paredes em casa”, comentou.

Uma das voluntárias, Folego, lembrou que, como aluna, viu um grafite na própria escola e copiou o desenho muitas vezes. “Toda vez que olhava ficava pensando do alto dos meus 13 anos: um dia quero pintar as paredes de uma escola também”.

O dia contou ainda com dois fotógrafos voluntários: Augusto Gomes e Bruno Braguetto, que fizeram os belos registros desta página, e um jogador de basquete, estudante da Universidade de São Paulo, Leonardo Uliam, que fez uma participação especial nas quadras.

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Sonho de aprender andar de bicicleta é realizado dentro da escola pública

“Era um sonho”, definiu o estudante Kheytty de Souza, que chegou aos 14 anos sem conseguir andar de bicicleta e se cadastrou no Quero na Escola para aprender. Com a ajuda da voluntária Carla Moraes, geóloga e Bike Anjo, ele levou apenas 15 minutos para dar voltas completas na quadra da Escola Municipal Mauro Faccio Zacaria, onde estuda, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

Carla, grávida, emprestou sua experiente bicicleta –  com a qual já fez viagens de até 500 quilômetros – e sua técnica certeira. “Sabia que ia ser fácil”, comentou. Assista:

A aula ocorreu na tarde desta sexta, 9 de setembro, no contraturno de suas aulas. Ao mesmo tempo em que ele aprendia a se equilibrar, alunos dos primeiros anos tinham educação física e alguém aprendia a tocar Hino Nacional. Quando ele deu a primeira volta, a torcida aplaudiu.

Segundo Kheytty, ele e o irmão ficaram muito em casa na infância e não puderam aprender. Depois ele tentou nas bicicletas de amigos, sem sucesso. “Eu até já tinha visto estas técnicas que ela fez em vídeo online, mas também não consegui”, comentou.

“Só pegar uma bike emprestada agora, Kheytty. Andar de bicicleta a gente não esquece”, disse Carla ao se despedir. “É o que dizem”, respondeu o estudante, em uma tarde em que chorou e sorriu.

Quer algo além do currículo obrigatório na sua escola? Pede: www.queronaescola.com.br