Tema da Redação do Enem foi pedido atendido pelo Quero na Escola em duas escolas do Rio

Pelo segundo ano consecutivo, o tema da Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) coincidiu com pedido de estudantes atendidos no Quero na Escola. Neste ano, dois colégios do Rio de Janeiro receberam palestrantes que debateram a Intolerância Religiosa, o Missionário Mario Way, em outubro, e o Amaro Cavalcanti, em julho.

Whatsapp de aluno que viu a palestra sobre Intolerância
Whatsapp de aluno que viu a palestra sobre Intolerância

A equipe do Quero na Escola está muito satisfeita em ser um canal para os estudantes dizerem o que querem aprender e por esta prática ter provado que os alunos estão interessados em temas importantes para toda a sociedade. Soubemos do tema deste ano por um aluno que, como a maioria dos estudantes de Ensino Médio,  não prestava a prova. Foi emocionante.

No ano passado, com apenas dois meses de idade, o Quero na Escola também antecipou o tema. A pedido de uma aluna, levou feministas para ministrar a palestra Contra Machismo, no extremo sul de São Paulo. Dias depois, o Enem teve como tema da Redação a persistência da violência contra a mulher.

Eliel Silva Valcacio, 18 anos, participou da roda de conversa no Colégio Mario Way com a voluntária Tania Jandira, umbandista e membro da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. “Quando eu olhei o tema fiquei bem mais relaxado, porque já sabia que teria controle sobre o assunto. Eu já tinha uma visão do tema, que devemos ter respeito com todas as religiões, mas a palestra expandiu minha visão, me trouxe informações que eu nunca tinha pesquisado, e me proporcionou uma prova maravilhosa”, contou Eliel.

fraseO colégio aproveitou o evento organizado pelo Quero na Escola e fez um dia inteiro de debates sobre o tema. “Escrevi sobre a liberdade que todos temos de crer ou não em algo e que estamos protegidos pela Constituição, para que todos possam ter a sua crença e conviver em sociedade”, disse o estudante, que está no 3º ano de Ensino Médio e é protestante.

No Colégio Amaro Cavalcante, a professora Monique Sochaczewski Goldfeld, pesquisadora sobre o Oriente Médio, atendeu ao pedido e deu uma aula sobre o clima bélico da região tão sagrada e igualmente complexa.

Luis Fernando Figueiredo, 18 anos, autor do pedido no Amaro Cavalcanti, prestou o Enem e disse que a palestra o ajudou, porque explicou sobre as formas de visão e preconceito com as crenças religiosas alheias. “Como [a redação] foi mais voltada pra intolerância no Brasil eu mencionei as culturas que existem aqui de uma forma geral e os tipos de preconceitos que ocorrem”, disse.

A estudante que pediu a palestra no Mario Way, Bruna Azevedo, 17 anos, perdeu o evento, porque estava viajando. Hoje, enviou uma mensagem à nossa equipe: “Mesmo não tendo participado da palestra, fico feliz por ter escolhido este tema, que com certeza ajudou a muitos no Enem. Fiz a prova ontem e amei o tema. Obrigada mais uma vez pelo trabalho que vocês fazem”.

É interessante reforçar que em ambos os anos não foi a equipe do Quero na Escola que “acertou” o tema, mas sim os estudantes. A plataforma é aberta a pedidos por qualquer assunto e não há sugestão de um tema ou outro, foram os alunos que trouxeram. O que garantiu o atendimento foi o espaço para que fossem protagonistas, a disponibilidade das voluntárias, a quem agradecemos mais um vez, nosso trabalho em conectar todas as pontas e as gestões das escolas por permitirem a participação da sociedade.

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Quero na Escola leva membro da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa para debate em colégio no Rio

No último sábado, o Colégio Estadual Missionário Mario Way, da zona oeste do Rio de Janeiro, discutiu um tema atual e importante: a intolerância religiosa. A aluna Bruna Azevedo havia pedido uma palestra sobre o tema no Quero na Escola e a presença de uma pessoa da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa (CCIR) motivou uma programação especial sobre o assunto no sábado letivo.

08102016-img_3876A psicóloga, umbandista e membro da CCIR desde 2008, Tania Jandira, aceitou o convite para conversar com alunos e professores e começou a roda de conversa perguntando o que havia motivado que eles estivessem ali para debater. Logo surgiram perguntas sobre o caráter laico do estado e da escola pública e se seria permitido alunos se organizarem para realizar cultos, palestras religiosas dentro do espaço escolar, como já aconteceu no Mario Way. “Culto dentro de escola é proibido. A escola é laica. Se isso acontecer, qualquer aluno pode denunciar ao Conselho Tutelar. Pela lei isso é proibido”, esclareceu.

Tania também apresentou dados sobre intolerância religiosa e sobre denúncias de violência no Brasil principalmente contra religiões de origem africanas. A atividade foi um momento para que alunos e professores de diferentes religiões (ou de nenhuma) se expressassem. Ao todo participaram 14 educadores e cerca de 75 estudantes.

“Eu sou ateu e acredito que não preciso de religiosidade para definir minha sociabilidade, minha ética e moral. Espero que o fato de ser ateu não signifique nada para os outros. Só existe uma maneira de defender a liberdade religiosa, é defender e respeitar todas as religiões”, disse o professor de Geografia Vitor Gouveia.

A coordenadora pedagógica Virgínia Conceição Batista também se manifestou: “Sou negra, pentecostal e sofro preconceito. Sei que as pessoas falam ‘ah ela é crente’, em tom pejorativo. Sinto que quando eu fecho os olhos para rezar antes de comer as pessoas me olham torto. Sou livre para escolher a religião que eu quero”.

Larissa de Oliveira dos Santos, de 16 anos, relatou que já sofreu preconceito por ser candomblecista. “Gostei do debate, porque mostrou que cada um tem a sua religião. Fiquei com vontade de falar e me senti bem. Quando tinha 7 anos, eu fiz o santo e raspei a cabeça. Alguns colegas começaram a me chamar de macumbeira e fiquei muito triste. Já tive vergonha de falar da minha religião, mas agora eu não tenho mais”, contou.

08102016-img_3882O aluno Andrey dos Santos da Silva, de 18 anos, afirmou que foi a primeira vez que participou de um debate sobre este tema na escola. “Gostei porque cada um deu a sua opinião e houve respeito. Não deve haver briga e intolerância por causa da religião do outro.”

O professor Marcelo Machado, de Geografia, avaliou que o debate foi muito rico e importante. “Não cabe querer impor aos outros os dogmas da minha religião. Os pré-conceitos de cada um é que têm gerado intolerância”, disse o professor, que é evangélico. Dentre os 14 educadores que estavam presentes havia pessoas de diversas religiões (católicos, evangélicos, umbandistas, espíritas kardecistas) e de nenhuma.

08102016-img_3886Na avaliação da coordenadora Virgínia, a atividade foi positiva. “Achei muito bom. Sinto que estamos caminhando. Fiquei surpresa com a participação dos alunos e a capacidade deles ouvirem, respeitarem diferente opiniões.”

A voluntária também gostou do debate e das intervenções dos educadores. “O debate foi muito rico, a escola tem uma equipe de professores excelente. Pelas conversas com alguns dos professores, creio que poderiam ter em seu plano pedagógico a questão da cultura da tolerância e dos direitos humanos e que possam trazer pais e líderes religiosos da comunidade em busca da construção de um diálogo. Os relatos durante a roda de conversa mostram que há uma tensão entre pais e alunos de um segmento neo-pentecostal, que dificultam a construção de uma memória cultural do país, a implementação da Lei 10.639 e a promoção de uma cultura de uma escola Laica. Tensão que tem sido a marca de várias escolas no país. Fizemos um levantamento que apontou que 5% dos casos de intolerância acontecem na escola, cometidos por professores, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos. Nosso papel [da CCIR] é levar o diálogo e a informação para que isso não aconteça”, apontou.

Tania Jandira é bacharel e licenciada em Psicologia, com atuação clínica e social, na área de promoção de Direitos Humanos nos temas: infância, adolescência e juventude; gênero, etnia e raça, saúde, geração de renda, cultura, meio ambiente, religiosidade e desenvolvimento local. Umbandista, membro da CCIR desde 2008; Fundadora e moderadora do site Umbanda Livre, foi coordenadora pedagógica do Curso “Candomblé, História, Memória e Sustentabilidade”, realizado pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP).

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