Atores com deficiência visual atendem pedido do Quero na Escola Especial Professor

Quando a professora Debora Frey pediu uma apresentação teatral no Quero na Escola Especial Professor certamente não imaginava que ela viria junto com uma lição de superação e alegria de viver. Assim como alguns professores, Debora fez um pedido pensando em seus alunos, da Escola Municipal República do Peru, no Méier, bairro da Zona Norte do Rio. Queria levar uma atividade diferente para eles.

Luis Fernando Gutman, diretor do grupo de Teatro Lucas Gutman, voltado para a inclusão social de pessoas com deficiência visual, já havia se cadastrado como voluntário no Quero na Escola e topou levar a apresentação do grupo para a escola.

20161024_082426
Atores aguardando o trem para o Méier na Central do Brasil

Oito atores com deficiência visual (a maior parte com perda total da visão) fizeram duas apresentações para cerca de 180 estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental. Cinco se encontraram com o diretor na Central do Brasil e pegaram o trem para o Méier e três foram direto para a escola. A viagem até o local da apresentação faz parte do processo de inserção social.

A peça “Preconceito” mostrava entrevistas em uma agência de emprego e uma série de discriminações feitas pelo entrevistador, que ao final percebia o quanto estava sendo preconceituoso. Dois alunos foram convidados a participar da apresentação, usando vendas para sentir como era atuar sem enxergar. Gutman fez um reconhecimento do palco com eles, mostrando onde estavam as paredes, a beira do palco e a plateia, assim como tinha feito com os atores cegos.

A parte mais emocionante para os alunos foi a roda de conversa que os atores fizeram ao final, quando responderam dúvidas, contaram sobre como lidaram com a perda da visão, quais dificuldades enfrentam e enfrentaram e como as superaram.

Manuel dos Anjos, de 56 anos, emocionou os alunos ao contar que perdeu a visão em um acidente de carro, aos 25 anos, na Avenida Brasil. “Eu estava em alta velocidade e tomei uma fechada. Percebi que havia uma criança no carro e tentei desviar, mas bati na mureta e capotei. No começo foi difícil, pensei em me suicidar e cheguei a pegar uma arma que eu tinha em casa e atirar contra a minha cabeça, mas meu compadre havia tirado as balas. Já conquistei muita coisa e vou continuar conquistando”, contou o ator que tem o projeto “comer sem ver”, no qual garçons cegos oferecem um café da manhã para clientes com os olhos vendados.

img_4600
A história de vida de Manoel dos Anjos emocionou os alunos

Os alunos perguntaram sobre situações curiosas e inusitadas vividas pelos atores. Marilza dos Santos Pereira contou que já pediu informação para um manequim que estava do lado de fora de uma loja. Nair de Azamboja Nunes lembrou que ao pedir ajuda para chegar à Caixa Econômica, uma mulher lhe respondeu “senhora, não tenho dinheiro”, imaginando se tratar de um pedido de esmola.

Os relatos dos atores emocionaram os alunos, que tiraram muitas lições da experiência. “Não tenho nem palavras. Eu reclamo muito de coisas mínimas e meu pensamento hoje foi ‘nunca mais vou reclamar de nada’. Eu tenho saúde, não tem porquê. A superação deles é incrível, as histórias são arrepiantes”, disse Maryanne Gomes Ferreira, de 14 anos.

“Eu fiquei emocionada quando ela (a atriz Nair) falou que os cegos veem o interior das pessoas”, contou Amanda de Castro. “Eu chorei quando o Manuel contou que se preocupou com a criança que estava no carro que fechou o dele”, declarou Luis Felipe Silva de Paula, de 14 anos.

Para Lyvia Greco, de 15 anos, não parecia que os atores não enxergavam. “Nunca tinha visto uma peça com atores cegos. Achei muito legal ver a superação de cada um”, disse a estudante.

img_4605
A professora Debora Frey, ao fundo, que fez o pedido no Quero na Escola Especial Professor

A professora Debora Frey ficou feliz com o presente: “Foi além do que eu esperava. Perceber o quanto os alunos gostaram foi gratificante. Depois que foram embora, os alunos ainda comentaram sobre o que eles vivenciaram, todos felizes! Agradeço muito ao grupo”.

“Foi mais uma oportunidade para mostrar que a superação de um trauma é possível. O esforço que as pessoas que adquiriram deficiência visual para se transformarem em atores mostra otimismo em relação à vida. Me dá muito orgulho esse trabalho de 11 anos, que comecei com o projeto de elevar a autoestima. A gente leva a mensagem não só do conteúdo da peça, mas de superação”, avaliou Gutman. O diretor do grupo destacou também a atenção e o respeito dos alunos com os atores.

O Quero na Escola – Especial Professor é uma parceria com a Fundação SM para permitir que, no mês dos professores, os educadores possam pedir a participação da sociedade como presente.

O Quero na Escola é uma plataforma para estudantes adolescentes dizerem o que mais querem aprender em suas escolas públicas além do currículo obrigatório. As informações ficam disponíveis no site e, quem quer ajudar, pode fazer uma proposta conforme sua disponibilidade. Veja todas as notícias do Quero na Escola aqui.

Estudante, o que você quer levar para suas aulas? Cadastre-se

Opinião sobre a reforma no Ensino Médio: Flexibilizar sem canalizar

Artigo publicado no Jornal O Globo em 24 de outubro de 2016 (link para o jornal)

Cinthia Rodrigues e Luciana Alvarez, fundadoras do Quero na Escola

A necessidade de flexibilizar o ensino médio dificilmente encontrará opositores. É consenso que o modelo engessado de 13 disciplinas vem afastando os jovens da escola. Mesmo os alunos que se mantêm matriculados, se distanciam emocionalmente dos estudos e pouco aprendem daquelas matérias. Ao mesmo tempo, buscam, muitas vezes sozinhos, conhecimentos diversos que não estão contemplados.

O Quero na Escola, projeto social que leva voluntários a escolas públicas para falar de assuntos pedidos por alunos, nasceu exatamente para dar amplitude e atendimento a voz de estudantes que querem aprender algo além da grade curricular. Diariamente, há pouco mais de um ano, escutamos seus pedidos e testemunhamos sua dedicação e felicidade quando encontramos voluntários que os atendam. Esta mesma experiência mostra que as “trilhas” da reforma do ensino médio, imposta pelo governo federal, não são o caminho para flexibilizar.

O engano está em supor que temos cinco tipos definidos de adolescentes. Como se uns só tivessem interesses adicionais em Linguagens; outros, só em Matemática; um terceiro grupo, só em Ciências da Natureza; o quarto, apenas nas Ciências Humanas; e o restante, em iniciar a Formação Técnica. Pelo contrário, os estudantes, como parece conveniente ao ser humano, especialmente nesta idade, gostariam de explorar áreas completamente diversas.

Vamos ilustrar com casos reais. Em Curitiba, por exemplo, uma aluna do 2º ano do ensino médio do Colégio Maria Teixeira Aguiar pediu fotografia, que provavelmente seria encaixado no âmbito das “Linguagens”, como as demais artes. Meses depois, quis aprender programação, mais associada ao campo da Matemática, e pediu um debate sobre política — tema mais aprofundado em Ciências Humanas. Na Escola Estadual Caetano de Campos, em São Paulo, uma mesma aluna pediu que falassem de drogas (biologicamente, Ciências da Natureza), feminismo (Ciências Humanas) e quadrinhos (Linguagens). Na Escola Estadual Maria Soares, em Itapevi, Grande São Paulo, um grupo que foi atendido nas solicitações de escrita criativa (Linguagens) e educação financeira (Matemática), agora pede alguém para falar de câncer (Ciências da Natureza). Como dizer a eles para escolher um único caminho, quando pedem exatamente para conhecer diferentes assuntos?

Impor uma reforma por medida provisória é de saída uma medida inflexível. Outros pontos estão e devem mesmo ser discutidos — como contratação de professores de assuntos não acadêmicos por notório saber ou redução da carga horária de disciplinas de base, que nos parecem ter prós e contras, embora exijam processos transparentes e democráticos. Mais importante, no entanto, é que há uma falha no cerne da reforma: a proposta de “trilhas” não flexibiliza. Pelo contrário, reduz as oportunidades de explorar nessa etapa da vida em que estão se descobrindo e vai no sentido contrário do que anseiam os adolescentes, afastando-os da diversidade.

Tal qual um rio que não deve ser canalizado tão perto da nascente, é prematuro obrigar os estudantes de ensino médio a optar por canais de conhecimento que levam por caminhos definidos e privá-los da experimentação geral a que deveriam ter direito a esta altura. Melhor seria que tivessem matérias obrigatórias e um cardápio de optativas com autonomia para escolher.