Quero na Escola leva membro da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa para debate em colégio no Rio

No último sábado, o Colégio Estadual Missionário Mario Way, da zona oeste do Rio de Janeiro, discutiu um tema atual e importante: a intolerância religiosa. A aluna Bruna Azevedo havia pedido uma palestra sobre o tema no Quero na Escola e a presença de uma pessoa da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa (CCIR) motivou uma programação especial sobre o assunto no sábado letivo.

08102016-img_3876A psicóloga, umbandista e membro da CCIR desde 2008, Tania Jandira, aceitou o convite para conversar com alunos e professores e começou a roda de conversa perguntando o que havia motivado que eles estivessem ali para debater. Logo surgiram perguntas sobre o caráter laico do estado e da escola pública e se seria permitido alunos se organizarem para realizar cultos, palestras religiosas dentro do espaço escolar, como já aconteceu no Mario Way. “Culto dentro de escola é proibido. A escola é laica. Se isso acontecer, qualquer aluno pode denunciar ao Conselho Tutelar. Pela lei isso é proibido”, esclareceu.

Tania também apresentou dados sobre intolerância religiosa e sobre denúncias de violência no Brasil principalmente contra religiões de origem africanas. A atividade foi um momento para que alunos e professores de diferentes religiões (ou de nenhuma) se expressassem. Ao todo participaram 14 educadores e cerca de 75 estudantes.

“Eu sou ateu e acredito que não preciso de religiosidade para definir minha sociabilidade, minha ética e moral. Espero que o fato de ser ateu não signifique nada para os outros. Só existe uma maneira de defender a liberdade religiosa, é defender e respeitar todas as religiões”, disse o professor de Geografia Vitor Gouveia.

A coordenadora pedagógica Virgínia Conceição Batista também se manifestou: “Sou negra, pentecostal e sofro preconceito. Sei que as pessoas falam ‘ah ela é crente’, em tom pejorativo. Sinto que quando eu fecho os olhos para rezar antes de comer as pessoas me olham torto. Sou livre para escolher a religião que eu quero”.

Larissa de Oliveira dos Santos, de 16 anos, relatou que já sofreu preconceito por ser candomblecista. “Gostei do debate, porque mostrou que cada um tem a sua religião. Fiquei com vontade de falar e me senti bem. Quando tinha 7 anos, eu fiz o santo e raspei a cabeça. Alguns colegas começaram a me chamar de macumbeira e fiquei muito triste. Já tive vergonha de falar da minha religião, mas agora eu não tenho mais”, contou.

08102016-img_3882O aluno Andrey dos Santos da Silva, de 18 anos, afirmou que foi a primeira vez que participou de um debate sobre este tema na escola. “Gostei porque cada um deu a sua opinião e houve respeito. Não deve haver briga e intolerância por causa da religião do outro.”

O professor Marcelo Machado, de Geografia, avaliou que o debate foi muito rico e importante. “Não cabe querer impor aos outros os dogmas da minha religião. Os pré-conceitos de cada um é que têm gerado intolerância”, disse o professor, que é evangélico. Dentre os 14 educadores que estavam presentes havia pessoas de diversas religiões (católicos, evangélicos, umbandistas, espíritas kardecistas) e de nenhuma.

08102016-img_3886Na avaliação da coordenadora Virgínia, a atividade foi positiva. “Achei muito bom. Sinto que estamos caminhando. Fiquei surpresa com a participação dos alunos e a capacidade deles ouvirem, respeitarem diferente opiniões.”

A voluntária também gostou do debate e das intervenções dos educadores. “O debate foi muito rico, a escola tem uma equipe de professores excelente. Pelas conversas com alguns dos professores, creio que poderiam ter em seu plano pedagógico a questão da cultura da tolerância e dos direitos humanos e que possam trazer pais e líderes religiosos da comunidade em busca da construção de um diálogo. Os relatos durante a roda de conversa mostram que há uma tensão entre pais e alunos de um segmento neo-pentecostal, que dificultam a construção de uma memória cultural do país, a implementação da Lei 10.639 e a promoção de uma cultura de uma escola Laica. Tensão que tem sido a marca de várias escolas no país. Fizemos um levantamento que apontou que 5% dos casos de intolerância acontecem na escola, cometidos por professores, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos. Nosso papel [da CCIR] é levar o diálogo e a informação para que isso não aconteça”, apontou.

Tania Jandira é bacharel e licenciada em Psicologia, com atuação clínica e social, na área de promoção de Direitos Humanos nos temas: infância, adolescência e juventude; gênero, etnia e raça, saúde, geração de renda, cultura, meio ambiente, religiosidade e desenvolvimento local. Umbandista, membro da CCIR desde 2008; Fundadora e moderadora do site Umbanda Livre, foi coordenadora pedagógica do Curso “Candomblé, História, Memória e Sustentabilidade”, realizado pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP).

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