Opinião sobre a reforma no Ensino Médio: Flexibilizar sem canalizar

Artigo publicado no Jornal O Globo em 24 de outubro de 2016 (link para o jornal)

Cinthia Rodrigues e Luciana Alvarez, fundadoras do Quero na Escola

A necessidade de flexibilizar o ensino médio dificilmente encontrará opositores. É consenso que o modelo engessado de 13 disciplinas vem afastando os jovens da escola. Mesmo os alunos que se mantêm matriculados, se distanciam emocionalmente dos estudos e pouco aprendem daquelas matérias. Ao mesmo tempo, buscam, muitas vezes sozinhos, conhecimentos diversos que não estão contemplados.

O Quero na Escola, projeto social que leva voluntários a escolas públicas para falar de assuntos pedidos por alunos, nasceu exatamente para dar amplitude e atendimento a voz de estudantes que querem aprender algo além da grade curricular. Diariamente, há pouco mais de um ano, escutamos seus pedidos e testemunhamos sua dedicação e felicidade quando encontramos voluntários que os atendam. Esta mesma experiência mostra que as “trilhas” da reforma do ensino médio, imposta pelo governo federal, não são o caminho para flexibilizar.

O engano está em supor que temos cinco tipos definidos de adolescentes. Como se uns só tivessem interesses adicionais em Linguagens; outros, só em Matemática; um terceiro grupo, só em Ciências da Natureza; o quarto, apenas nas Ciências Humanas; e o restante, em iniciar a Formação Técnica. Pelo contrário, os estudantes, como parece conveniente ao ser humano, especialmente nesta idade, gostariam de explorar áreas completamente diversas.

Vamos ilustrar com casos reais. Em Curitiba, por exemplo, uma aluna do 2º ano do ensino médio do Colégio Maria Teixeira Aguiar pediu fotografia, que provavelmente seria encaixado no âmbito das “Linguagens”, como as demais artes. Meses depois, quis aprender programação, mais associada ao campo da Matemática, e pediu um debate sobre política — tema mais aprofundado em Ciências Humanas. Na Escola Estadual Caetano de Campos, em São Paulo, uma mesma aluna pediu que falassem de drogas (biologicamente, Ciências da Natureza), feminismo (Ciências Humanas) e quadrinhos (Linguagens). Na Escola Estadual Maria Soares, em Itapevi, Grande São Paulo, um grupo que foi atendido nas solicitações de escrita criativa (Linguagens) e educação financeira (Matemática), agora pede alguém para falar de câncer (Ciências da Natureza). Como dizer a eles para escolher um único caminho, quando pedem exatamente para conhecer diferentes assuntos?

Impor uma reforma por medida provisória é de saída uma medida inflexível. Outros pontos estão e devem mesmo ser discutidos — como contratação de professores de assuntos não acadêmicos por notório saber ou redução da carga horária de disciplinas de base, que nos parecem ter prós e contras, embora exijam processos transparentes e democráticos. Mais importante, no entanto, é que há uma falha no cerne da reforma: a proposta de “trilhas” não flexibiliza. Pelo contrário, reduz as oportunidades de explorar nessa etapa da vida em que estão se descobrindo e vai no sentido contrário do que anseiam os adolescentes, afastando-os da diversidade.

Tal qual um rio que não deve ser canalizado tão perto da nascente, é prematuro obrigar os estudantes de ensino médio a optar por canais de conhecimento que levam por caminhos definidos e privá-los da experimentação geral a que deveriam ter direito a esta altura. Melhor seria que tivessem matérias obrigatórias e um cardápio de optativas com autonomia para escolher.

 

 

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