Após dinâmica sobre racismo com voluntária, professora diz que alunos não serão mais os mesmos

“Quem aqui se considera negro?”, foi o primeiro questionamento levantado por Isla Nakano, socióloga que atendeu ao pedido por uma palestra sobre Racismo, feito por Naieslei Carvalho, 16, aluna da Escola Estadual Anecondes Alves Ferreira, em Diadema, Grande São Paulo.

Mostrando que não seria a única a falar ali, Isla continuou perguntando: “Você ou alguém que você conhece já passou por uma situação que você considera racista?” A maioria dos braços se ergueram e logo os jovens começaram a se engajar na conversa. “Por mais que a pessoa pense que nunca passou por isso, uma coisa que acontece é você entrar numa loja e a vendedora já olhar torto pra você. Às vezes você tá no ônibus e a pessoa não quer sentar do seu lado. Acho que isso pode sim ser uma forma de racismo”, compartilhou Érica Meira, aluna do 3º ano.

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Após “quebrar o gelo” com as perguntas iniciais, a socióloga, mestre em estudos étnicos, raciais e migratórios, foi mais longe: pediu que os alunos se reunissem em pequenos grupos para compartilhar situações em que passaram ou presenciaram o racismo. Depois, um integrante de cada grupo foi ao centro da roda contar todos os relatos divididos por seus colegas. Leonardo, também no último ano do Ensino Médio, compartilhou por exemplo o receio de andar em um shopping e sentir o julgamento dos seguranças: “Só porque a gente tem uma aparência da periferia acham que a gente não vai poder comprar nada”.

Ao serem perguntados do porquê do negro receber esse tratamento na sociedade, muitos demonstraram um entendimento histórico e crítico sobre o assunto. “Desde os séculos passados os negros eram vistos como escravos, e essa visão, que eu acho errada, veio continuando. A mídia também coloca isso na nossa cabeça quando os papéis principais das novelas nunca são negros, sendo sempre a empregada doméstica”, dividiu uma das alunas.

De volta aos grupos, dessa vez os estudantes teriam que compartilhar um episódio marcante de suas vidas, não necessariamente ligado ao preconceito. Foi aí que o encontro se intensificou. Alguns contaram sobre divórcios dos pais, falecimentos e assassinatos em suas famílias e até de um tio que teria a intenção de vender órgãos da própria sobrinha para comprar drogas. Naieslei não segurou o choro ao desabafar sobre questões pessoais, sendo aplaudida pelos colegas por sua força: “Tem também a questão de que a minha família não aceita o fato de eu ser lésbica”. 

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Alunos foram ao centro falar sobre suas experiências e de seus colegas de grupo.

Após esse momento de troca, Isla contou que a ideia da dinâmica era exercitar a empatia. “É isso que aproxima a gente. Quando você ouve a história do seu colega, às vezes você nunca nem conversou com ele na escola, mas a gente sente alguma coisa e percebemos que somos próximos”, contou. Um dos alunos concordou: “Na escola a gente é tipo robô. Esse é um momento que a gente pode falar de nós mesmos, sem ser sobre conteúdo”, seguido por outra aluna, que afirmou nunca ter tido essa oportunidade de conversar sobre questões pessoais dentro da escola.

Para Isla, também foi uma oportunidade única de guiar uma palestra diferente do que ela imaginava: “Foi tudo muito inesperado, talvez por isso tenha sido tão incrível e me surpreendeu muito! Eu cheguei lá e vi que os conceitos que eu tinha separado para falar não tinha como fazer daquele jeito, e eles acabaram me ensinando como acompanhar os pensamentos deles, as demandas deles”, ela conta. A voluntária também saiu da sala emocionada: “Eu fiquei extremamente impressionada com algumas pessoas que estavam na sala, gente com trajetória de vida muito intensa, com histórias inexplicáveis e com um pulso de vida, com uma vontade de construir algo novo, que me emocionou demais! Essa troca foi a coisa mais bacana”. 

“As pessoas que vão sair daqui hoje não são as mesmas que entraram”, afirmou a professora de Sociologia, Gilnair Pereira, que aproveitou para estimular os jovens a fazerem mais pedidos no Quero na Escola. “Eu achei maravilhoso, aprendi muito. Consegui perceber aqui alguns problemas que eles tem que eu não havia percebido antes e que vou procurar a partir de agora trabalhar na sala de aula”, contou.

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Professora Gil, de Sociologia, conversa com os alunos depois da palestra.

Ela e o coordenador pedagógico da escola contaram que percebem entre os alunos casos de racismo daqueles que por muitos são considerados “normais”, como o uso de apelidos, mas que o preconceito fica mais aparente contra jovens que se assumem homossexuais. “É que o Brasil não é um país racista, né?”, ironiza a professora, “mas só quem tem a pele mais escura, quem é mulher, homossexual, ou está fora do padrão de beleza, sabe como é”.

“Foi melhor do que eu esperava. Não achei que iam se envolver desse jeito, que eu ia desabafar e acabar chorando. Eu vi pessoas que eu nunca falei na vida contando histórias e me senti amiga delas por ter histórias parecidas”, conta Naieslei, dividindo mais uma ideia para a escola: “Até conversei com a professora Gil e a gente teve a ideia de montar um grupo de apoio, para poder conversar assim pelo menos uma vez na semana, juntar os alunos que querem desabafar e querem ser ajudados”.

A EE Anecondes Alves Ferreira já havia recebido duas palestras, sobre Direitos Humanos, uma em março e a outra em maio deste ano depois de um pedido no Quero na Escola. Veja a página da escola no site, pode ser que tenha algum assunto em que você pode ajudar.

É estudante e quer pedir uma aula diferente na sua escola? Peça em www.queronaescola.com.br

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