Quero na Escola lança especial professor


O Quero na Escola surgiu para dar voz aos alunos de escola pública e oportunidade à sociedade de atuar na educação. Ao longo destes primeiros meses de vida, outro elemento central demonstrou interesse nesta ajuda: o professor. Então, em parceria com a Fundação SM, lançamos, neste 25 de julho, o Quero na Escola – Especial Professor.

Até outubro o educador também vai poder dizer como a sociedade poderia ajudá-lo a dar aquela aula especial ou mesmo ensiná-lo algo que lhe faz falta. Nós vamos fazer as conexões para que, em outubro, mês dos professores, os presentes cheguem em forma de voluntários. O vídeo acima explica tudo direitinho.

Conta pra gente, professor, quem você gostaria de convidar: www.queronaescola.com.br/professor

Uma aula sobre a complexidade do Oriente Médio

O pedido por uma palestra sobre Intolerância Religiosa de um aluno do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, no Rio de Janeiro ao Quero na Escola, motivou a professora Monique Sochaczewski Goldfeld, pesquisadora do Oriente Médio, a conversar com os alunos sobre essa região tão sagrada e igualmente complexa.

Na última sexta-feira (15), Monique deu uma aula sobre os principais conflitos, a coexistência de diferentes etnias, religiões, e grupos terroristas, como o Estado Islâmico, com a ajuda de mapas. “Estão ficando tontos? É para ficar, porque é muito complexa a região”, brincou Monique durante a aula.

IMG_2185Os estudantes se interessaram principalmente sobre a guerra civil na Síria e sobre o grupo terrorista Estado Islâmico. “Nós analistas acreditamos que ainda vamos ouvir falar muito deles”, disse Monique, que dá aulas na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e cursos na Casa do Saber.

Monique explicou que, diferentemente da Al Qaeda, o Estado Islâmico tem territórios e recursos financeiros, conquistados pela venda de petróleo, de relíquias históricas no mercado negro, pela cobrança de impostos nas cidades dominadas, e pelo pagamento de resgates de sequestrados, entre outras fontes de renda.

No dia anterior a palestra, havia acontecido um atentado na França com um caminhão, que atropelou uma multidão, deixando cerca de 90 pessoas mortas em Nice, no sul do país. “O que aconteceu ontem em Nice é algo que a gente fica desesperado quando estuda o terrorismo, que é o lobo solitário, alguém que se inspira naquela ideologia e você não tem como prever”, analisou completando que o atentado em uma boate gay de Orlando, nos Estados Unidos, também parecia ter o perfil de ação de lobo solitário.

Luis Fernando Figueiredo, de 18 anos, autor do pedido no site do Quero na Escola, estava pensando em um debate sobre Intolerância Religiosa, com representantes de diversas religiões, “do budismo ao satanismo”, mas achou interessante a palestra com foco no Oriente Médio: “Tirei algumas dúvidas e gostei da parte sobre o Estado Islâmico”.

A estudante Bruna Silva de Souza, de 17 anos, pretende cursar Relações Internacionais e gostou de poder se aprofundar no Oriente Médio na escola. “Nós do Ensino Médio não temos essa questão em sala de aula, mal estudamos o Brasil, imagine países diferentes com culturas diferentes”, disse.

“Aprendi bastante principalmente em relação à Síria, que me interessa porque minha avó é de lá. Gostaria que as matérias fossem assim mais dinâmicas, sobre esses temas, porque os alunos aprenderiam bem mais do que só copiar o que está no quadro”, disse Thaís Correia, de 19 anos.

Para a voluntária, que está acostumada a dar aulas para pós-graduação, foi um desafio falar com estudantes de ensino médio. “Adorei, mas senti que talvez devesse ter feito algo mais na linguagem deles. Como em qualquer turma tinha alguns mais interessados na frente, perguntando, e outros menos. Eles leem, veem jornalistas falando na imprensa análises e é uma oportunidade de ter um tempo maior para elaborar as coisas”, avaliou.

Muito além do gibi

Na última segunda-feira (11), o ilustrador e quadrinista Pacha Urbano deu uma aula teórica e prática sobre Quadrinhos no Colégio Estadual Missionário Mario Way, em Inhoaíba, na zona oeste do Rio de Janeiro. O pedido tinha sido feito no site do Quero na Escola por Moisés Gomes, de 18 anos, aluno do 3º ano do Ensino Médio, fã de histórias em quadrinhos de super-heróis.

Mas a aula dada por Pacha foi muito além do gibi. O ilustrador resgatou as primeiras imagens deixadas por seres humanos em pedras, as pinturas rupestres, passando pelos astecas, que faziam papel a partir do agave (planta utilizada na produção de tequila), por iluminuras medievais, até chegar ao primeiro personagem com balão de fala. Mostrando que, desde os primórdios, a humanidade utiliza ilustrações para retratar sua realidade.

11072016-IMG_2158Com exemplos de tirinhas de autores brasileiros e estrangeiros, Pacha apresentou diferentes formas de contar histórias em quadrinhos, com desenhos mais ou menos elaborados, apontou recursos usados para mostrar a passagem do tempo, metalinguagens, metáforas e ironias empregadas. O ilustrador também explicou o conceito de Pareidolia, quando imagens aleatórias e vagas são percebidas como algo distinto e com significado (como o rosto humano), que permite que com poucos traços, personagens humanos sejam criados.

O autor de “As traumáticas aventuras do filho do Freud” (http://facebook.com/FilhodoFreud) contou para os estudantes que, após muito estudar sobre Psicanálise, decidiu criar os personagens (Sigmund Freud, e seus filhos Jean-Martin e Anna) para transportar para outra linguagem os conceitos que havia aprendido. “Se você acha graça nas coisas que aprende, fica mais fácil gravá-las”, disse aos estudantes.

Depois da aula teórica, os alunos realizaram uma atividade prática. A turma escolheu três frases e todos tiveram que elaborar uma história com quatro quadrinhos, que tivessem obrigatoriamente as três frases escolhidas.

Para o estudante que pediu a atividade, a aula ampliou horizontes. “Quando solicitei o tema no Quero na Escola eu esperava algo voltado para os super-heróis e o Pacha levou uma outra perspectiva sobre tudo. Quando ele começou a falar, eu vi que ia muito além do que queria, e foi maravilhoso. Foi muito mais cultural. Foi uma oportunidade de explorar um universo que a gente ama ainda mais”, relatou Moisés.

O ilustrador ficou contente por poder levar uma atividade sobre Quadrinhos para uma região desassistida culturalmente – a escola fica localizada a cerca de 60 quilômetros do centro da cidade. Ex-aluno de escola pública periférica, Pacha se perguntou como teria sido se na sua adolescência debates como este tivessem acontecido em seu colégio.

“É muito gratificante poder fazer isso. Lidar com dúvidas genuínas e ajudar os estudantes a decodificar conteúdos e temas. Falamos sobre diversas coisas, sobre repertório cultural, de imagens, fazendo eles refletirem sobre o que já sabem. Eles têm bagagem cultural e são agentes culturais, meu papel é jogar querosene, para que eles produzam”, contou Pacha.