Contra o racismo não basta ser neutro

Em 2023, a Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas, completa 20 anos. Temos muito a comemorar? Para que estudantes e professores possam responder, o Quero na Escola lança a pesquisa-ação: “Sua escola é (anti)racista?”. 

O projeto começará na volta às aulas com uma consulta em que as e os educadores e estudantes poderão falar do racismo que percebem, dos conteúdos étnico-raciais que estão no seu cotidiano e demandar materiais formativos e articulação de ações antirracistas nas escolas.

Desde o início do Quero na Escola, pedidos de ações contra racismo, assim como temas relacionados, como intolerância religiosa e literatura negra, estiveram entre as demandas comuns de estudantes. Nos últimos tempos, no entanto, chegamos a uma “situação-limite” em que o ódio, um ódio que no Brasil quase sempre é racista, tornou mais comuns ataques violentos, inclusive em escolas.

Entendemos que a educação pode contribuir para reduzir este ódio. Como diz Conceição Evaristo: “há um passado presente na nossa história” e compreendê-lo é essencial.

Dedicamos os últimos meses de 2022 a estudar como poderíamos contribuir com o tema. Constatamos que há muitos materiais disponíveis sobre o assunto, inclusive de forma gratuita e em formatos variados. Há também um grande número de estudantes, professoras e professores que buscam falar sobre o tema, mas ainda se atem a datas específicas, generalizações do continente africano e redução da história da população negra à escravização.

Ao mesmo tempo, a sociedade está cheia de grupos artísticos, culturais, acadêmicos e pessoas que carregam grandes saberes sobre a história e a cultura afro-brasileira. Ou seja, nosso papel aqui é fazer o que sempre fazemos: ouvir as demandas da comunidade escolar por ajuda, buscar quem possa colaborar e organizar atividades.

Convidamos todas as pessoas e instituições que, como nós, acreditam que não se acaba com o racismo sendo neutro a colaborar na construção e fortalecimento deste projeto. Conheça mais e inscreva-se em antirracista.queronascola.com.br

Militante negra leva discussão racial para escola pública de Salvador

Evaldo Leal é estudante do Ensino Médio do CEEP Luiz Pinto de Carvalho em Salvador, Bahia, considerada a capital mais negra do Brasil. Este título, porém, não isenta a cidade de discriminação racial, e foi pensando nisso que Evaldo fez seu pedido ao Quero na Escola: “Etnia, cor e representatividade negra”. O estudante quis levar para sua escola, principalmente, a questão de como pessoas negras enxergam a si mesmas em meio a tantos estereótipos e representações midiáticas preconceituosas.

Quem se prontificou a atender ao chamado foi a comunicóloga e militante da pauta racial Luciane Reis, que atua principalmente na área do afro-empreendedorismo, sendo idealizadora do Merc`Afro, uma agência de fomento ao desenvolvimento de negócios locais e étnicos. A conversa girou em torno da inclusão dos jovens negros na universidade, da discriminação e da falta de valorização, mostrando que as dificuldades enfrentadas por eles vão além das relacionadas à baixa renda. Mas Luciane e os alunos também conversaram sobre como essa população tem conseguido superar obstáculos, mesmo tendo de se esforçar mais, devido à falta de oportunidades.

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Luciane conversou com duas turmas do Ensino Médio

“Também foram levantadas questões acerca das nossas origens, até de forma que pudéssemos vislumbrar a identidade que iremos construir daqui pra frente”, contou Evaldo. “Houve um engajamento, mas acho que ainda temos muito a explorar, porque ainda é uma coisa nova pra gente”. O estudante deseja levar mais discussões como essa para dentro de sua escola.

“Foi um encontro rico em troca de informação. Encontrei adolescentes não somente preocupados com seus futuros, mas criando possibilidades de mudança para sua realidade”, contou Luciane. E as trocas vão continuar por lá: na próxima semana será a vez dos estudantes do turno da tarde receberem uma advogada, pesquisadora da causa racial, para debater a questão em uma roda de conversa.

E os baianos podem ficar ligados no nosso mapa, que tem vários pedidos aguardando voluntários. Uma estudante de Itaparica quer saber mais sobre o mercado de trabalho na Biologia e um estudante de Ubaíra quer conhecer profissões como Medicina, Design e Tecnologia da Informação.