Jornalista vai à escola para falar de gravidez e acaba conversando sobre sexualidade

Por Natália Sierpinski

“Gravidez na adolescência” foi o pedido feito no Quero na Escola pelo grêmio da Escola Estadual Olindo Dartora, em Caieiras. O tema motivou a jornalista Gabriella Garcia Sanches Feola, acostumada a escrever sobre sexualidade, que saiu de São Paulo para ver quais eram as dúvidas dos adolescentes, entre 14 e 17 anos. Depois de uma sondagem inicial, viu que podia ajudar de outro jeito. Os jovens conheciam os métodos contraceptivos e riscos, mas faltava uma conversa que incluísse falar de sexo sem tabu.

Gabriella é formada em Jornalismo pela Universidade de São Paulo e atualmente é mestranda, também pela USP, com um projeto sobre sexualidade e educação. No começo, ela conversou com os alunos sobre alguns métodos contraceptivos, como a camisinha, o anticoncepcional e a pílula do dia seguinte, apontando algumas questões sobre o uso desses recursos e também perigos, reflexões e cuidados para com eles. Durante a conversa ficou explícito que as informações sobre esses métodos contraceptivos chegam até os alunos, então,  por que ainda temos casos de gravidez na adolescência?

Assim a discussão extrapolou o tema da gravidez e passou a sexualidade. Ela explicou como é algo social e estrutural e falou das diferenças de tratamento do tema para homens e mulheres. “As mulheres desde cedo são ensinadas que existe uma relação entre sexo e amor e entre relação sexual e relacionamento”, comentou, lembrando como o casamento e a construção de uma família são frisados na criação de uma menina e que, desde pequenas, são ensinadas a falar sobre sentimentos e cuidado do próximo. Já os homens, são ensinados que existe uma relação entre sexo e prazer e entre masculinidade e ter várias relações sexuais. “O casamento é colocado como um momento de ´game over´ e opcional, sendo o foco principal sua carreira e seu trabalho”.

 

A conversa ainda passou por temas como a responsabilidade de lembrar da camisinha e necessidade de masturbação para todos. “Falamos sobre a importância das mulheres terem mais conhecimento sobre seus corpos, se masturbarem e terem relações sexuais apenas quando de fato tiverem vontade, pelos motivos que quiserem, mas buscando não apenas dar prazer ao parceiro mas também visando o seu próprio prazer”, comentou a jornalista.

A coordenadora da escola, Catia Izabel Pellizari Espinosa, conta que os educadores já tratam do tema nas aulas de Ciências e nos projetos Saúde e Bem Estar. Ela diz que doenças sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência costumam ser abordadas, mas que foi a primeira vez que veio alguém de fora só para falar desse assunto.

Gabriella lembrou de quando ela mesma era estudante e a abordagem já era esta: “A aula de ciências foi de cinco minutos com a professora respirando fundo, tentando falar tudo o mais rápido possível e evitando palavras como vagina e pênis”, recorda, acrescentando que a abordagem contribui para esse tema seguir como um tabu nas escolas.

Em seu trabalho de conclusão de curso da graduação (TCC), Gabriella pesquisou sobre a construção da sexualidade feminina, tendo como resultado final o livro “Amulherar-se”, disponível online. Ela também contribui para os portais “Papo de Homem” e “Lado M” com artigos sobre sexualidade mais voltados ao público adulto, “Falar sobre gravidez na adolescência me pareceu muito difícil” relatou. No final da atividade foi possível ver que algumas novas perspectivas foram trazidas e indo além do tabu, do punitivismo e das questões meramente biológicas e técnicas.

Três dicas de como trabalhar o tema da sexualidade:

A pedido do Quero na Escola, Gabriela dá três dicas de como abordar o tema.

1) Faça isso antes do ensino médio

A sexualidade normalmente, quando trabalhada, é feita apenas para os alunos dos últimos anos do ensino médio. Porém esse tema possui relação com a formação do aluno desde muito antes da adolescência, sendo necessário tratar inicialmente a relação do jovem para com seu próprio corpo e os conceitos de consentimento e autonomia antes mesmo de chegar na “fase do namoro”. Gabriella publicou um artigo mais específico sobre esse tema que pode ser lido na íntegra no link a seguir: https://papodehomem.com.br/porque-falar-sobre-sexo-com-seus-filhos/

2) Crie um espaço de diálogo permanente

As questões dos alunos sobre esse tema mudam de acordo com o desenvolvimento deles e o passar dos anos, assim fomentar um espaço de diálogo permanente na escola sobre esse assunto contribui para que esse tema não seja tratado como tabu ao mesmo tempo que vira um espaço de referência e suporte para que os alunos possam recorrer ao surgir novas questões e dúvidas.

3) Relacione a sexualidade com o machismo e a masculinidade tóxica

Falar sobre sexualidade não se trata de falar apenas da relação sexual de forma isolada, também diz respeito a comportamentos e ao empoderamento das pessoas sobre seus próprios corpos. Desse modo é preciso debater sobre os papéis de gênero juntamente com a questão da sexualidade. Trazer que é construída socialmente diferentes expectativas acerca da sexualidade masculina e feminina de modo a não naturalizar tais padrões. Temos muitos relatos de mulheres que já fizeram sexo sem estar com vontade apenas para agradar o parceiro, que o ápice da relação sexual é o orgasmo masculino enquanto o orgasmo feminino é tratado como tabu, somente a partir desse debate social que vai ser possível trazer reflexões para ambos gêneros.

E você, quer convidar alguém para falar de um assunto que falta na sua escola? Inscreva-se no Quero na Escola.

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