“Quem aqui usa droga?”, perguntaram levantando as próprias mãos

Os psicólogos Gabriela Campos dos Santos, 23 anos, e Otávio Machado, 24, não fizeram a palestra que os estudantes da Escola Estadual Caetano de Campos da Aclimação, no Cento de São Paulo, esperavam. O tema foi solicitado por uma estudante representante do grêmio ao Quero na Escola, mas quando os 63 alunos do Ensino Médio noturno se reuniram na sala de leitura, esperavam algo diferente.

“Quem aqui usa droga?”, perguntou Machado. Primeiro levantaram a mão apenas ele e a colega. Depois, a professora de Filosofia, Monica Severo – uma entre os cinco educadores que acompanhavam – somou, explicando que gostava da “cervejinha socialmente”. Os estudantes olharam cúmplices e até riram, mas não levantaram a mão.

drgas_cc2Os voluntários explicaram que até o café e o doce contém “substâncias que viciam” e que estavam certos de que todos ali usavam drogas. Passaram, então, a falar das lícitas e ilícitas.“Eu já usei drogas ilícitas e eventualmente ainda uso maconha”, confessou Machado, conseguindo daí para frente atenção total da turma.

Entre informações amparadas pela Organização Mundial da Saúde sobre substâncias que viciam, os dois falaram da diferença entre uso, abuso e dependência. “Uso é o ato de você consumir aquela vez, abuso é quando vai além, passa do limite, como o porre que te deixa mal no dia seguinte, e dependência é quando você não consegue ficar sem e isso atrapalha você dar seu rolê, você estudar, etc”, explicou Gabriela.

Os dois falaram sobre procedência, alertando que substâncias misturadas podem fazer mais mal à saúde que a droga em si, sobre olhar para a sua condição psicológica ao usar e como depressão e ansiedade podem piorar com maconha, por exemplo, e, um dos tópicos que os estudantes mais gostaram: prestar atenção na situação em que você está antes de usar, o que vai desde a consciência de que na adolescência os danos podem ser maiores porque o cérebro está em desenvolvimento até os 22 anos a quem são os amigos em quem você confia.

drogas_cc2“Quando ele falou de pensar quem vai usar com você, quem vai estar bem se você precisar de cuidado, onde você vai estar se ficar chapada, os riscos de você ficar em perigo por causa da droga, isso foi um ponto muito importante de conscientização”, comentou Thaylinne Cunha, 18 anos, autora do pedido ao Quero na Escola. “Eu achei demais. Foi mais legal do que a gente esperava, porque foi uma coisa da realidade da maioria aqui.”

Um aluno perguntou se eles eram a favor da legalização. “Sou a favor da regulamentação, o que inclui tornar o mais seguro possível. Toda sociedade sempre teve droga”, comentou Machado.

Ao final, os dois perguntaram qual era o principal recado: “Não use droga”, disse um dos estudantes. “Não é isso, não. É saiba qual a situação que você está usando”, concluiu o psicólogo que trabalha em uma ONG de Redução de Danos em Sorocaba.

A professora de Filosofia, Mônica Severo, que foi à escola só para ouvir, também achou acima da expectativa. “Os meninos precisam muito que alguém fale com eles desta forma honesta, sem moralismo, mas com a reflexão sobre o dano.”

O professor de Português Júlio César Esbarras disse que aproveitará o evento para produção de artigos de opinião. “Super legal eles terem este espaço pra reflexão com informação e de um assunto tão próximo para eles”, disse.

A coordenadora pedagógica Ana Maria, que também foi à instituição fora do horário para acompanhar como seria o primeiro evento do Quero na Escola na Caetano de Campos, diz que quer “esperar para ver” os resultados em relação à conscientização. “O que gostei foi de vocês dispostos a ajudar, com temas que nem sempre são do nosso domínio.”

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