Quero na Escola, ações online e práticas educomunicativas

Por Bianca Coelho

Publicado originalmente no site Base Educom

Após ingressar na universidade pública, há quase dois anos, fui estagiária no Quero na Escola. Esta é uma ONG, que existe há 05 anos, com foco nos alunos do ensino público. Eles entram em nosso site e fazem pedidos por temáticas que gostariam de aprender. A equipe conecta voluntários que possam atendê-los. Os objetivos do programa são, em principal, o protagonismo dos jovens e a participação de voluntários interessados. É também oferecer às escolas parceiros do entorno, promover integração dos estudantes com diferentes setores da sociedade, reunir informações sobre as demandas dos jovens nas escolas públicas e contribuir com novos aprendizados e desenvolvimentos.

Durante o ano de 2020, enfrentamos novos desafios dentro das adaptações no formato online. 

Pandemia e o “novo normal”: e agora?

Quando se iniciou a pandemia no ano passado, nós da equipe realizamos uma reunião em que foi debatido e concluído que continuaríamos nosso trabalho, só que os pedidos atendidos aconteceriam no modo online a partir daquele momento. Ou seja, sempre fizemos a mediação e a conexão entre os envolvidos (escola e sociedade) à distância, mas as ações eram presenciais, dentro das escolas. Nosso trabalho era fazer o alinhamento entre as pontes (aluno-escola-voluntário) e o voluntário ia até a escola do aluno que fez o pedido. 

Com o covid-19, as ações aconteceram em dois formatos: lives abertas no Facebook e encontros fechados via Google Meet, sendo a critério da proposta enviada pelo voluntário. Cada pessoa da equipe tinha uma quantidade x de pedidos para alinhar as informações (disponibilidade, plataforma a ser utilizada, como ocorreria a ação). Por exemplo, com os pedidos que estavam comigo, fazia toda a comunicação com o voluntário e depois com o estudante. Conseguíamos outros alunos interessados participantes do Quero na Escola e fazíamos os encontros acontecerem. Para que as atividades online acontecessem, fizemos material de orientação para o voluntário entender como utilizar as plataformas da melhor forma. Além disso, fazíamos reunião com estes voluntários antes da ação online para conversar, conhecer e orientar como funcionariam os encontros.

O Quero na Escola também realizou entrevistas com alunos da escola pública e entendeu a necessidade de outro projeto: o Quero Livro. O aluno pedia em um formulário algum livro que gostaria de ter e nós conseguíamos os voluntários para comprar ou doar o livro a este aluno. O projeto durou de julho a  outubro, tendo o encerramento em novembro de 2020 com 105 livros entregues na residência dos estudantes participantes. 

Por fim, outro projeto realizado pela ONG foi o Apoio Emocional – Especial Professor que realizamos reuniões anteriores para consolidar as ideias e os objetivos. Demos foco à saúde emocional dos professores também da rede pública. Eles poderiam realizar 03 tipos de pedidos (apoio individual, escuta coletiva entre colegas de profissão e ação com alunos). O projeto durou de julho a novembro de 2020. E trago news: estamos com a segunda edição! Se conhecer algum professor que possa estar precisando de ajuda emocional, clique aqui para mais informações. 

      Imagem utilizada nas redes sociais do Quero na Escola para anúncio das ações online. 

Ok, mas como aconteceu a conexão com os voluntários?

Diante de todos os objetivos da ONG em realizar atividades com temáticas escolhidas por alunos, perfaz a utilização do meio virtual para tratar dos aspectos importantes de cada processo. De início, pensa-se em uma organização dialógica e aberta ao contatar o(a)s aluno(a)s, voluntários(a)s e demais indivíduos da gestão escolar. Em todas as reuniões da equipe, é debatido como lidar com determinadas situações, visto que o contexto denota múltiplas particularidades.

A forma de dialogar por meio dessas redes não é a mesma. No WhatsApp, existe uma maior aproximação e contato que pode, muitas vezes, demonstrar-se mais rápido. Já no Facebook e no e-mail, são utilizadas outras estratégias de comunicação (como artes e textos respectivamente). 

Desta forma, o termo mediação, ativa e virtual nesse contexto, é usufruída no que diz à comunicação existente nesses espaços e não mera transmissão de informações (emissor –

mensagem – receptor). Em cada contexto e situação, a mediação dá-se de modos distintos, pois é construída em conjunto, tendo a voz dos participantes envolvidos como indispensável para o agendamento de atividades. 

No formato online realizado em 2020, para além da mediação nas redes sociais, enviávamos material de orientação sobre as plataformas Google meet e Hangouts para os voluntários e alunos participantes enviados via WhatsApp. Neste arquivo, foi feito o passo a passo com informações importantes do que era preciso ser feito para acessar e aspectos importantes a serem utilizados nos encontros. 

O que tem de prática educomunicativa na ONG?

Dentro do fundamento de comunicação dialógica, a reflexão e ressignificação dos participantes do processo (voluntário(a)s e aluno(a)s) sobre a atividade é classificada como mediação. Este processo foi explorado por Jesus Martín-Barbero que declarou a influência da comunicação na cultura e sociedade, sustentando também a significância da compreensão crítica do receptor. 

Com relação à Educomunicação e ao que foi colocado por Barbero, vê-se a mediação, inserida no processo comunicacional, como parte fundamental para a ocorrência das atividades promovidas pela ONG. Este processo de orientação e acompanhamento anterior que é trabalhado por tempo determinado até que chegue o dia da atividade online colabora para a dialogicidade e empatia, dando maior sentido às temáticas desenvolvidas.

Também há de destacar a importância da transformação no ensino público que a ONG Quero na Escola, de diversos modos, apresenta, desenvolve e trabalha. Outrossim, como relatou o psicólogo estadunidense, Howard Gardner, citado no site Geekie, “a qualidade do sistema educacional de uma nação será uma das principais determinantes – talvez a principal – de seu êxito durante o próximo século e para além dele” e é através dessa busca de qualidade, em que é inevitável o protagonismo do estudante, o estímulo ao conhecimento e à criticidade, bem como da inserção de diversificadas temáticas sociais no dia a dia dos estudantes (princípios também relacionados às práticas educomunicativas e que o projeto proporciona), que ocorrem transformações concretas na educação. 

E o que aprendemos com tudo isso?

2020 permitiu uma abertura no Quero na Escola nunca feita antes. Nos outros anos, mesmo com a insistência dos envolvidos (aluno-voluntário-escola), não realizávamos as ações no formato online. 

Durante o ano passado, a exceção se tornou o nosso dia a dia. Então, continuar atendendo os pedidos dos alunos da escola pública dentro de uma dialogicidade no online foi um desafio e também um resultado alcançado. Ao todo, fizemos 70 ações online (abertas e fechadas) com feedbacks positivos.

Algumas das ações ficaram gravadas no Facebook e os minicursos fechados ficaram gravados no drive, sempre disponibilizado aos estudantes. Os alunos relataram a importância desse armazenamento, já que muitos não possuíam internet no momento do encontro síncrono. Vimos voluntários atendendo alunos de diferentes estados e que, normalmente, este não conseguiria pegar um avião e ir até a escola daquele aluno. Tivemos a participação de voluntários brasileiros internacionais que também conseguiram atender os jovens daqui. Então, tornamos o processo mais acessível, mesmo no online. 

Após um ano difícil, sentimos a necessidade de ouvir novamente os alunos através de entrevistas. No final de 2020, entendemos que a demanda havia sido modificada: eles queriam agora também ter a chance de lidar com as dificuldades das temáticas curriculares e ligadas ao mercado de trabalho. Assim, nasceu o Ponto Extra que já atendeu mais de 05 estados diferentes. Através do feedback dos alunos, busca-se cada vez mais atender de acordo com a necessidade. 

Como eterna estudante da escola pública, acredito em um ensino público de qualidade. Acredito completamente no potencial dos estudantes e são eles que, inclusive, foram os maiores prejudicados nesta pandemia e que quero ver na universidade pública. 

Mais ainda, é porque acredito que também entendo a importância de transformar a educação (com práticas educomunicativas) através de quebras de paradigmas e apoios/suportes nas necessidades dos integrantes da escola. Acredito e continuarei acreditando. Nós pelos nossos.

Referências 

BARBERO, Jesus Martin. Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.

Links da internet

A transformação da educação nunca foi tão necessária e possível. Disponível em:

https://www.geekie.com.br/blog/artigo-transformacao-educacao. Acesso em: 30 de maio de 2021.