O que ouvimos mediando gênios na Campus Party

Por Cinthia Rodrigues, coordenadora do Quero na Escola

Um dia um asteróide próximo do Planeta Terra vai ser batizado de Luiz Fernando da Silva Borges. Sabem quem é? Um estudante de 18 anos do Mato Grosso do Sul que já coleciona 50 prêmios pelas pesquisas que faz em engenharia biomédica. A convite do grupo Mentoring Young Talents Brazil (MYTB), mediei na 10ª edição da Campus Party uma mesa em que ele e outros quatro jovens gênios falaram de como se aprende – o que foi bom de ouvir – e da distância entre isso e o que veem ocorrer nas escolas – e isso foi triste.

Os cinco se destacam em áreas diferentes (veja perfis abaixo), mas estavam ávidos para falar de Educação. Foram eles e a fundadora do MYBT, Angelita Drunkenmolle, que sugeriram e fizeram campanha pelo painel “Educação: inovar ou revolucionar”. Para eles, é preciso aumentar a expectativa sobre o estudante, incentivar a autonomia do jovem e ajudá-lo a encontrar a forma singular de aprender de cada um.

“A revolução que precisa acontecer é a que coloca o estudante como protagonista e não mais passivo. Ele tem condições de descobrir. Não aprendendo o que a dona hipotenusa foi fazer com os catetos, mas derivando o teorema de Pitágoras”, comentou Luiz.

Para ele, o problema é que somos mais recompensados pelo sucesso em reproduzir do que pela busca de avanços, mesmo que resulte em fracasso. “A gente tem a tal da classificação dos cientistas por quantidade de artigos publicados. Não interessa se o artigo é reprodução ou divisão de uma pesquisa maior. Quantos queriam fazer pesquisa e viraram escravos do professor?”  

Gabriel Santos, que aos 16 anos é embaixador do programa Educação Livre, com chancela da Unesco, já foi reprovado na escola por falta, enquanto investia em campeonatos mundiais de robótica. “Quando descobri que podia aprender sozinho, a escola passou a ser a pior coisa da minha vida. Pra que vou até lá se posso aprender no youtube?”, contou, acrescentando que não achou a resposta até hoje.

“O jovem de 14 a 17 anos tem um perfil que se resume a passar no Enem. Depois chega lá, não era o que ele esperava. Será dele a culpa?”, comenta. “A escola não ensina pra gente como o cérebro funciona. É complicado falar em um sistema porque o Brasil é grande e muito diferente. Então, acho que o ensino tem de ser personalizado.”

Yolanda Rodrigues, 22 anos, fez parte da faculdade de Ciência e Tecnologia na França e compara os sistemas. “Desde o ensino médio, eles lá fora são muito acostumados a estudar sozinhos. Aqui o professor fala exatamente o que é pra estudar e se não cair na prova, tem aluno que até cobra”, lamenta. Ela conta que ela própria tem dificuldade em fazer prova, apesar do sucesso em diferentes áreas. “Eu não consigo copiar de livro. Então a gente podia ter mais uso prático, pegar problemas reais e resolver”.

Para Maria Vitória Valoto, 16 anos, todos estes problemas devem ser resolvidos pelo governo e pelos próprios estudantes. Aos 15 anos, ela desenvolveu uma cápsula contra intolerância à lactose e hoje faz pesquisa em laboratório de ponta.  “Vamos ouvir o estudante porque é pra gente a escola. Não é para eles. E acho que não adianta só reclamar, ‘ah, minha escola está em greve, ah, o sistema no Brasil’ e ficar no Netflix. A gente não pode esperar a mudança, é o nosso papel também levar a mudança”.

Quem deu algumas dicas sobre como gostar de aprender foi João Victor Chaves da Silva, 20 anos, fundador da Empreenda Junto (que transmitiu o painel ao vivo pelo Facebook, assista aqui). “Hoje estou muito conectado a áreas de Machine Learning e adaptar o processo de aprendizado. Por mais que seja algo novo, gosto muito porque é o que quero fazer. Ao mesmo tempo tenho que estudar coisas que sinceramente odeio, como finanças, mas sei que preciso. Então tem duas coisas que a gente aprende: o que você gosta e o que você estuda porque tem um objetivo. Sempre mantenha em mente o seu objetivo e reveze entre o que gosta e o que precisa”, aconselhou. 

A palestra que teria inicialmente 45 minutos, acabou se estendendo por mais de duas horas e vários estudantes da plateia participaram. E queriam participar mais ainda. Mais uma evidência de que até os estudantes mais brilhantes podem melhorar sua relação com a própria escola com autonomia.

Quer chamar alguém para promover uma atividade diferente dentro da sua escola pública? queronaescola.com.br

Quem são:

Da esquerda para a direita: João Vitor, Luiz, Angelita, Cinthia, Gabriel, Yolanda e Maria Vitória
Da esquerda para a direita: João Vitor, Luiz, Angelita, Cinthia, Gabriel, Yolanda e Maria Vitória
  • João Vitor Chaves da Silva, 20 anos, é técnico em eletrotécnica e automação industrial pelo Cefet de Minas Gerais, fundador da Empreenda Junto e pessoa mais jovem do mundo a receber o título de Teacher of New Venture and Leadership pelo MIT Global Enterpreneurship Bootcamp.

  • Luiz Fernando da Silva Borges vem desenvolvendo tecnologias na área de engenharia biomédica: construindo um equipamento que torna mais barato exames laboratoriais baseados em DNA; um novo método para controle de próteses robóticas de braço com sensação tátil e um método para fazer pessoas em coma se comunicarem. Com 18 anos, detêm mais de 50 prêmios e títulos, sendo apontado para a International Astronomical Union (IAU), por meio do MIT Lincoln Laboratory, para ter um asteróide próximo do Planeta Terra batizado com seu nome.

  • João Gabriel Santos, 16 anos, faz experiências com robótica desde os 12 anos, é fundador do Makerspace Sesi RJ e embaixador do Educação Livre, programa chancelado pela Unesco.

  • Maria Vitória Valoto, 16 anos, criou cápsulas com a enzima lactase de baixo custo e com diferente aplicação para quem sofre de intolerância à lactose e ganhou 21 prêmios sendo a primeira brasileira e única representante da América Latina a estar na Google Science Fair, uma feira organizada pela Google Education.

  • Yolanda Rodrigues, 22 anos, graduada em Ciências e Tecnologia com ênfase em Engenharia dos Materiais pela Universidade Federal do  Rio Grande do Norte, que fez Graduação Sanduíche no INSA de Strasbourg, na França.

     

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s