Três séries de Educação na Netflix e um drama oculto para o Brasil

Observação: contém descrição de cenas das séries mencionadas

Três sucessos recentes na Netflix se passam em escolas públicas de Ensino Médio, duas nos Estados Unidos e uma na Catalunha. As séries “13 Reasons Why”, “Atypical” e “Merlí” tratam respectivamente de suicídio, autismo e filosofia, mas para quem frequenta salas de aula no Brasil há um drama oculto adicional: o contraste entre as escolas “problemas” das telas e a nossa realidade.

A mais polêmica é a “13 Reasons Why”, sobre uma jovem que se suicida após gravar 13 fitas, uma com cada motivo que a levou a morte. Doze dos responsabilizados por ela são colegas que cometem bullying, omissão e estupro e o último é o psicólogo da escola, a quem ela recorre mais de uma vez para expor seus problemas. O psicólogo, que trabalha com o diretor, tem sua própria sala e uma rotina dedicada a conversar com estudantes, educadores e pais para ajudar a resolver conflitos, faz um trabalho deficiente e não dá atenção à protagonista.

1) 13 Reasons Why

Quem acompanha os dramas das escolas brasileiras, que incluem suicídio, bullying, estupro e outros dramas, sabe que no Brasil sequer existe este funcionário da escola. Em 2017, “depressão” foi um tema bastante solicitado por estudantes no Quero na Escola, o que já é um indicador preocupante. Em duas escolas, uma voluntária palestrou sobre o assunto e acabou permanecendo por horas cercada por jovens que queriam falar de seus dramas e pediam ajuda. A voluntária encaminhou as alunas – todas mulheres – a serviços municipais de atendimento psicológico. Um profissional como o do seriado, não havia nem para tentativa.

Em “Atypical”, cujo protagonista é um jovem Asperger (tipo de autismo que inclui uma alta habilidade) muito do que chama atenção aparece também em “13 Reasons Why” e em diversos filmes de colégios americanos: corredores com armários, salas ambientes,  laboratórios sendo usados e reuniões de pais em anfiteatros que não servem apenas para meros comunicados da escola, mas sim para discussão e busca de soluções. O duro é ver como uma escola assim ainda é considerada ruim perto do que seria uma realmente boa.

2) Atypical

Na cena final da primeira temporada de “Atypical”, o jovem refaz todos os passos da namorada em busca de uma correntinha perdida. Passa pela sala de Química, pela sala de Francês, pela sala de História, abre o armário em que ela guarda seus livros e objetos pessoais – enquanto no Brasil até mesmo salas de informática e de leitura ficam trancadas – e finalmente encontra a bijouteria no fundo da piscina que ela usou na última aula do dia, que diferente do Brasil não é a 5ª ou 6ª aula, mas a 8ª.

O jovem chega então, molhado, ao baile de formatura com a correntinha. Estão todos de fone de ouvido por uma decisão do conselho de escola por um “baile mudo” para que ele não se estresse com o som alto. Ali encontra a irmã, que ganhou uma bolsa de estudos para uma escola muito melhor por se destacar como esportista. Ela o tira para dançar e diz que não precisa aceitar a bolsa. O jovem, cuja Síndrome garante sinceridade acima do comum, responde: “Seria muita burrice não ir”, deixando claro que toda a cena anterior não mostrou mais que uma escola mediana.

3) Merlí

Na série catalã, há mais semelhanças com as escolas brasileiras. O protagonista, Merlí, é um professor de Filosofia que se aproxima dos jovens em oposição a um professor coordenador conservador, que insiste em se impor pelo medo. A lousa verde e o giz são os principais instrumentos e os alunos frequentemente sentam-se nos degraus das escadarias. A escola pública é por vezes criticada e há estudantes pobres, à beira da evasão.

Ainda assim, algo sai do que seria considerado comum no Brasil. As paredes das salas têm cores e armários, janelas com cortinas e ar-condicionado. Os jovens fazem aula de Educação Física e tomam banho no vestiário e o laboratório de Ciências aparece bem equipado. Ora a turma faz uma excursão, ora uma mãe, presidente da Associação de Pais e Mestres, atua dentro da escola em uma sala destinada aos pais.

O mais diferente, no entanto, é o tratamento dado a um dos estudantes que está em casa com agorofobia, medo de espaços públicos. A instituição destina um professor para visitá-lo regularmente, dar aulas e ajudar em sua recuperação. Na ficção, os esforços dão certo: o jovem vence o medo e volta para a escola, junto com os colegas que desistem do abandono. Impossível não pensar em mais de 1,5 milhão de jovens brasileiros que deveriam estar nas nossas escolas e como os enredos dos seriados ajudam a explicar o que falta pra isso.

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